No ARION

No ARION
No oceano, em 2001, viajando entre a Terceira e S.Vicente (Cabo Verde)
Mostrar mensagens com a etiqueta ARTIGOS NO DI. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ARTIGOS NO DI. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Saúde e Espiritualidade

SAÚDE E ESPIRITUALIDADE



HELIODORO TARCÍSIO


Desconfio que este artigo vai demorar ainda mais que o costume para sair. Para variar, não critico ninguém nem me envolvo numa saborosa polémica. Também não vou sair-me com gracinhas. E passo a léguas do inflamado, embora árido e desinteressante debate político, que enche páginas dos jornais e revistas no momento atual.
Desta vez, tenciono apenas partilhar o agradável momento que vivi ontem, dia 25 de Maio, quando me desloquei ao auditório da Escola de Enfermagem de Angra do Heroísmo para assistir a uma excelente conferência, proferida pelo Professor Doutor Raul Teixeira, no âmbito do tema Saúde e Espiritualidade.
Numa breve nota biográfica, o Professor Doutor Raul Teixeira é um cidadão brasileiro, de Niterói, estado do Rio de Janeiro, licenciado em Física, Mestre e Doutor em Educação. Para além disso, é um conceituado espírita e um bem conhecido médium psicógrafo, com muitos livros publicados, que foram escritos pelo seu guia espiritual, de nome Camilo. É também um dos principais mentores de uma obra de assistência social espírita, denominada “Remanso Fraterno”, que apoia, material e espiritualmente, pessoas e famílias carenciadas.
O Prof. Raul comunica facilmente, com eficácia e simpatia e possui evidentes dons de oratória, o que, em conjugação com a plena convicção que carateriza todos os divulgadores espíritas, resultou numa conferência viva e animada. Ontem, confesso que achei o primeiro quarto de hora relativamente morno, porque foi preenchido com generalidades mais ou menos óbvias. Mas depois, o conferencista foi-se animando, perante uma plateia numerosa, interessada e muito atenta. Mesmo sem terem sido feitas grandes revelações, foram abordados e explicados com a aparente simplicidade das pessoas superiores, alguns dos grandes vectores da doutrina espírita.
Infelizmente, não pude ficar para a 2.ª parte, das perguntas e respostas. Gostaria de ter colocado duas questões ao conferencista e é essa reflexão que partilho aqui hoje.
Em primeiro lugar, para mim, assim como, segundo creio, para a generalidade das pessoas, há uma aparente e manifesta injustiça no sofrimento por que passam algumas pessoas “boas” nesta vida e, muito especialmente, quando os sofredores são crianças. Nesses momentos, ficamos revoltados e não entendemos nada da infinita bondade divina e dos insondáveis desígnios de Deus. É claro que a doutrina espírita explica suficientemente este aparente paradoxo. Mas, talvez pela promiscuidade entre Espiritismo e Cristianismo que, nem sempre é benévola ou saudável, muitas vezes uma errónea ênfase é colocada nos conceitos muito caros à Igreja Católica de”culpa, castigo e expiação”. Ou seja, os inocentes sofrem porque já viveram muitas vidas antes, são seres antigos, como todos nós, que carregam muitas falhas nas suas vidas de almas imortais e eternas, que podem estar a “pagar” no presente. Efetivamente, essa impressão ficou clara ontem. Ficou no ar. Claro que não era isto exatamente que o Prof. Raul Teixeira queria dizer. Há aqui coisas a clarificar. E ele tê-lo-ia feito muito melhor que eu, sem dúvida. Os conceitos de base no Espiritismo não são de “culpa e castigo”. Isso é estranho à natureza, infinitamente justa mas também infinitamente misericordiosa de Deus. Os conceitos de “falta”, “falha” ou “erro” existem, já que todos os espíritos são criados iguais, ingénuos e puros e, como tal, ignorantes do Bem e do Mal, que têm de aprender à sua custa, num longo processo de evolução. Mas não há “castigo” nem “culpa” exatamente. Há necessidade de “reparação” e oportunidade de fazer melhor, de aprender e evoluir em cada existência que atravessamos. Quando fazemos uma maldade, provocamos um desiquilibrio na vida do Universo, que teremos, inevitavelmente, de “reparar”, mais tarde. E como voltamos, inexoravelmente, a lidar com aqueles a quem fizemos mal, desfrutamos de muitas oportunidades para “reparar” o mal feito. O modo como isso acontece pode ser misterioso e incompreensível para quem tem a nossa limitada e terrena visão. Mas é importante lembrar que, quando desencarnados, os espíritos participam ativamente da sua avaliação de desempenho e da decisão sobre a sua próxima oportunidade de reparação e de evolução. Obviamente, não temos esse conhecimento, quando encarnados mas isso é outra história…Também é fundamental entender que muitas vezes o sofrimento de uma pessoa está mais ligado à evolução de outras do que às necessidades dela própria. Reconheço que nada disto é simples, pelo contrário é extraordinariamente complexo.
A segunda observação tem a ver com a psicografia, fenómeno pelo qual tenho o maior respeito. Não tive ainda o prazer de ler algo psicografado pelo Prof. Raul. Mas já li muita coisa psicografada. Por exemplo, pelo famoso médium brasileiro, recentemente desencarnado, Xico Xavier, textos ditados pelos seus dois principais guias espirituais, Emmanuel e André Luiz. E há uma série de coisas que me incomodam sobremaneira. Por exemplo, que todos estes textos sejam abundantemente percorridos por um moralismo que, muitas vezes, me parece não exatamente errado mas demasiado primário…Que os textos de Emmanuel e André Luiz sejam, por vezes, tão semelhantes… Deveriam sê-lo? E que não consiga deixar de sentir que muitos destes textos poderiam ter sido escritos pelo próprio Xico Xavier, se ele escrevesse, já que a sua personalidade, as suas ideias e a sua forma de comunicar ficaram conhecidas…
Gostaria de ter confrontado o Prof. Raul com estas questões, que ficam aqui, em aberto, para quem se interessa por estes assuntos. De resto, gostei muito, foi um ótimo momento de fuga à nossa vida material e de convivência com a nossa verdadeira essência, a espiritual. POPEYE9700@YAHOO.COM

terça-feira, 24 de maio de 2011

DESCONTROLE & MOTIVAÇÃO NA CLASSE MÉDICA

DESCONTROLE & MOTIVAÇÃO NA CLASSE MÉDICA


HELIODORO TARCÍSIO


Esta manhã tive um súbito acesso de solidariedade. Não tenho nada de santo e se vivesse em Calcutá, como Madre Teresa viveu, provavelmente fazia a minha vidinha, trabalhava, jantava fora, namorava uma atriz de Bollywood, jogava um críquete e não ligava nenhuma aos deserdados da sorte. Mas, de vez em quando, sinto genuína pena dos que sofrem, como no caso do recente tsunami no Japão. Esta manhã calhou-me sentir pena dos médicos, coitadinhos, que têm sido vítimas de feroz perseguição, pela parte da tutela, chegando a ser tratados como cães.
O Dr. Adriano Paím, diretor do Serviço de Cirurgia do Hospital de Angra do Heroísmo, defende publicamente que os médicos controlados podem desmotivar-se. Naturalmente, pelas regras da boa Lógica, posso daqui inferir a preposição contrária, que os médicos precisam de estar descontrolados para se motivar.
Arrepiou-me sobremaneira saber que um médico desmotivado pode não atender o telefone ás 3 da madrugada. Entendo perfeitamente, eu também prefiro estar a dormir ou a fazer amor com a minha amada a essa hora. Mas, na minha simplicidade de raciocínio, quer-me parecer que, se um médico não atende o telefone ou telemóvel às 3 da manhã (ou os desliga, o que dá no mesmo na prática), está, de alguma forma, a trair o seu juramento de Hipócrates. Não sabemos se Hipócrates era de confiança nem se o seu juramento não foi apenas uma peça de concurso a uns Jogos Florais ou algo do género, uma coisa bonita de se dizer mas meia vaga, generalista e pouco sincera… E eu sou um leigo na matéria mas, arriscaria a dizer que vai ser pouco saudável para um acidentado, para um tipo que teve um AVC ou para um hospitalizado que piorou repentinamente, que o médico de que ele urgentemente precisa, esteja em casa, desmotivadíssimo, a dormir profundamente na sua caminha e não atenda o telefone…Há aqui qualquer coisa que não joga…
Há pessoas que abraçam a carreira da Medicina por genuína e intrínseca motivação. Não me parece que deva ser por qualquer outra razão. É por isso que defendo que a habilitação para o acesso aos estudos médicos não deve assentar apenas nas notas da escola. Essa cretinice, com explicações bastante maliciosas, faz com que estejamos sempre à míngua de médicos e tenhamos que importá-los da Espanha e da Colômbia, onde não são recrutados, necessariamente, entre os marrões da escola. Encontramos frequentemente maus médicos em Portugal e todos tiveram altas notas. Infelizmente, há muita gente que escolhe Medicina pelos proventos materiais e pelo status social. E, como se acham uma classe à parte, intocável até bem recentemente, num Portugal pacóvio, corrupto e atávico, esperneiam e vociferam, quando se começa a colocar em causa aquilo que eles consideram justíssimos privilégios de classe. Como não serem sujeitos a qualquer controle, por exemplo. Aparentemente, isso fá-los sentir motivados, o que não deixa de ser curioso. E eu a julgar que a desmotivação do trabalhador português tinha sobretudo a ver com os baixíssimos salários e o fraco poder de compra…Sabendo que o controle biométrico é uma realidade do mundo do trabalho e está presente atualmente por todo o lado, nas empresas, nos serviços públicos, agora entendo porque os trabalhadores andam tão desmotivados. Pensar que o patrão, o chefe, a tutela, vão saber, todos os dias, exatamente quando chegámos ao trabalho ou o largámos, é realmente de desmotivar qualquer um…Com efeito, antes era bem melhor. Chega-se quando se chegar, parte-se quando se partir. Tem alguém à espera ? Pois que espere sentado e confortável, para isso é que existem cadeiras e ar condicionado. Ai que saudades dos velhos tempos…”O Sr. Doutor já chegou? Não, ainda não chegou… Mas já são 16h e a minha consulta era às 14h…Tenho coisas a fazer, o Sr. Doutor não poderia cumprir o horário? Não senhor, não pode, senão fica desmotivado, cumprir horários é para operários fabris e pilotos de linha aérea. Ah tá bom, obrigado, entendi, só mais uma coisinha, não tem nenhuma revista deste ano?”.
Na minha opinião, só se pode ser médico (a propósito, não estará na altura de mudar esse designação para “técnico de saúde”…?) por sincera vocação, desde que se garanta que pessoas sem o perfil indispensável não chegam lá, mesmo que tenham altas notas. É preciso muito mais que ser inteligente e bom aluno. Um médico tem de ser devotado à sua profissão, aceitar de boa fé as suas condicionantes e caraterísticas únicas. Tem de ser compassivo, solidário, empático e, sobretudo, muito disponível. Tem de ser emocionalmente muito forte e estruturado, para poder lidar da melhor maneira possível com o sofrimento das pessoas e com a dura realidade da morte. Se um médico se sente desmotivado, colocando assim em risco a vida e saúde dos seus pacientes, porque o sistema que lhe paga quer saber a que horas ele entra (e sai, já agora), então se calhar devia pensar seriamente em mudar de profissão. Não digo ir para operário mas, quem sabe, talvez para gestor de uma fábrica de pregos. Ser piloto de aviação civil também dá muito dinheiro e status. A farda é bonita e chama a atenção. Mas a TAP precisa de saber a que horas chegam os pilotos e por onde andam os aviões. É chato mas tem de ser.
Diz ainda o Dr. Adriano Paím que tem um serviço motivado e controlado por ele próprio. Dou-lhe os meus sinceros parabéns. Mas será defensável que a gestão de horários e a assiduidade dos trabalhadores sejam controladas por uma pessoa ? O Dr. Adriano Paím pode até ser um gestor muito eficaz mas não é eterno. E se lhe aparece a prima Alzheimer aos 63 anos ? E pode garantir que o seu sucessor tenha a mesma eficácia, rigor e capacidade de motivação? É claro que não.
Com estas declarações, o Dr. Adriano Paím, independentemente da sua competência técnica, que desconheço, não vêm ao caso e, de qualquer forma, não poderia avaliar, vem mostrar, com evidência, o que NÃO deve ser um médico dos nossos dias. Nesse sentido, as suas declarações são muito úteis. Muito obrigado. Felizmente, não são todos assim. Recentemente, um conhecido médico de Angra (muito obrigado por aquela simpática boleia na Graciosa, há muitos anos), abordou-me na rua da Sé para me cumprimentar pelo meu artigo “Sr. Doutor Bobi?” e para me dizer que concordava inteiramente comigo. O que me tranquiliza minimamente é que também há médicos destes. POPEYE9700@YAHOO.COM

VOLTA LUCKY LUKE!

VOLTA LUCKY LUKE!


HELIODORO TARCÍSIO

Os partidos políticos, os mesmos que, nunca me cansarei de o dizer, são autênticos parasitas sociais, que não acrescentam nada de bom ao país, ignoraram desdenhosamente a petição subscrita por 35.000 pessoas (nas quais me incluo), “Por uma campanha eleitoral sem custos para as finanças públicas” e vão dissipar 6 milhões (!) de euros em duas semanas. Quantia essa que já pagámos, ela vem dos nossos pesados impostos, mas pagaremos de novo, através da subida de impostos, de novas taxas e da sangria dos nossos depauperados ordenados. Quando digo “nossos”, infelizmente não estou a ser universalista, falo da martirizada classe média portuguesa. Nos ricos ninguém tocará, eles sabem defender-se, estão protegidos pelo polvo das relações e dependências e deles depende a solução milagrosa do investimento, que, supostamente, há-de tirar o pais da fossa onde se encontra agora. E quanto aos pobres, coitaditos, eles não podem pagar a crise e têm de ser protegidos. Já Cristo dizia qualquer coisa como “Venham a mim os pobrezinhos”. Ou algo assim, não sou versado nessas coisas. Agora é Sócrates quem o diz e eles vão. Também, para onde haviam de ir…
São os mesmos partidos políticos que enviam deputados para a Europa diariamente, transportados em primeira classe nos aviões. E que depois têm o supremo descaramento de vir defender em público esse indefensável privilégio, dizendo que deve ser assim porque trabalham muito enquanto voam. Essa gente miserável devia ver o vídeo que recentemente recebi (santa Internet!), sobre os deputados suecos, que ganham ordenados perfeitamente medianos, que, quando deslocados, residem em pequenos e modestos apartamentos e que usam os transportes públicos quando viajam. Esses sim, são verdadeiros trabalhadores da causa púbica, que agem por gosto e convicção.
Há alternativas honestas à escandalosa situação que temos vivido há demasiados anos. Mas o bando de abutres que nos têm governado e nos governa, aposta tudo no analfabetismo, o primário e o funcional, de boa parte da sociedade portuguesa, na sua evidente iliteracia, no seu laxismo, apatia e desinteresse. Eles sabem que grande parte dos Portugueses de hoje é ignorante e não quer saber de nada, desde que pingue algum ao fim do mês, mesmo que seja cada vez menos mas que vá dando para o tabaco e cheiro no café e que o Benfica vá ganhando umas coisas. Neste momento, eu poderia falar em ajuda divina mas as piadas sobre o Benfica, que incluem o nome de Jesus, estão a ficar muito vistas…Resumindo, os políticos sabem perfeitamente que grande parte do povo português come e bebe, dorme e defeca mas…não pensa.
Entretanto, o circo eleitoral está já montado, com os palhaços do costume e um ou outro contorcionista com uma habilidade nova. E aqui, a minha estupefacção não tem limites. Sócrates, o líder do bando que levou o país à pura e simples bancarrota em seis anos, é de novo candidato, tem votos, aparece bem maquilhado nas sondagens, tem cartaz, tem até hipóteses. E quando essa criatura abre aquela boca bem falante, que fica logo abaixo do seu conspícuo nariz de Pinóquio, nem uma única vez é para reconhecer as suas culpas e pedir perdão ao país. Não se apresenta na televisão como devia, se tivesse vergonha na cara, descalço, com bordão de penitente e a cabeça coberta de cinzas. Não, aparece bem vestido, em bicos de pés e é sempre para culpar alguém; ele é a crise internacional, essa negra criatura, ele é os facínoras da oposição, essa quadrilha de malfeitores…Eu acrescentaria o Eusébio, que nada disse este tempo todo e Nossa Senhora de Fátima, que, esquecendo-se da bovina devoção do bom povo português, não realizou um único e singelo milagre para nos tirar da crise. Como não consigo acreditar que o povo português seja ASSIM tão estúpido, então a única explicação só pode residir na falta de alternativas. Ou uma coisa híbrida, estupidez crónica e falta de alternativas, talvez seja mais razoável.
Os Irmãos Dalton tomaram conta do país. Volta Lucky Luke e até podes fumar em público. POPEYE9700@YAHOO.COM

SR. DOUTOR BOBI ?

Sr. Doutor Bobi ?



HELIODORO TARCÍSIO

Fiquei deveras surpreendido ao abrir o Diário Insular de 5 de Abril e deparar com declarações do presidente da Ordem dos Médicos nos Açores, a respeito da entrada em funcionamento do serviço biométrico no Hospital de Angra. O meu limitado inteleto não acompanhou os raciocínios dele. Não admira, ele deve ser médico, doutro universo, um crânio, eu não tive médias de 18 e 19 no secundário. Diz ele que a tutela trata os médicos “como cães”. Eu entendo pouco de Medicina, mas dá-me ideia que não…O que será que o senhor doutor quis dizer com aquilo?! Será que lhes andam a servir carne com demasiado osso nas cantinas dos hospitais? Coitados, não quero crer…Alguém terá mesmo partido um dente? Terá ocorrido alguma infestação por pulgas, com origem na tutela? Há surtos de esgana entre eles? Obrigam os médicos machos a urinar contra a parede ou contra alguma árvore? São atendidos por veterinários quando a doença os atinge? Alguém quis, alguma vez, obrigá-los, a usar uma coleira, fora do âmbito de jogos sado-maso? Obrigam-nos a usar chip? Avaliam-lhes a saúde pelo estado dos caninos quando os contratam? Têm de disputar as fêmeas no cio com todos os colegas? Cheiram o rabo uns dos outros, como cumprimento? Têm a mania de se pôr numa posição impossível e fazer sexo oral a si próprios? São promíscuos e pouco asseados? O senhor doutor não nos concedeu a gentileza de partilhar com o público as suas ideias. Disse mas não explicou. Ficámos nas trevas, tal como toda a gente no Estádio da Luz, domingo passado.
Contudo, adiantou também que a tutela trata os médicos como o Marquês de Pombal tratou os Jesuítas. E sobre esta execrável criatura, eu já sei algo mais…E já consigo entender um pouco do que estaria na iluminada cabeça do senhor doutor. As políticas de D. José I foram claramente influenciadas pelo despotismo esclarecido e pelo absolutismo francês. Confesso que não acho os nossos déspotas nada esclarecidos. Mas, mais que influenciados, somos comandados pela Europa. E se não é pelos franceses, é pela Alemanha, o que é, realmente, muito semelhante. Também me parece bem possível comparar a ascendência que tinham os Jesuítas do séc.XVIII com a enorme influência que sempre tiveram os médicos na sociedade portuguesa. Daí, até à cruel tutela, decidir persegui-los, expulsá-los e até exterminá-los, vai um passo. A gente sabe como essas coisas começam. Com pezinhos de lã, começam por impor coisas duras mas minimamente razoáveis, como tetos salariais e regimes de exclusividade e, quando os pobres dos médicos menos esperam, pimba, saltam-lhes em cima com coisas hediondas e exigências desmesuradas, como, por exemplo, picar o ponto. Como é que isto é possível? Picar o ponto?! Como se atreve uma tutela, qualquer que seja, a querer saber quando chegam e quando abandonam o serviço, os profissionais que paga, muito bem pagos, ao fim do mês? Onde é que já se viu ?! Então um médico, não pode dormir até mais tarde? Demorar-se no café, a conversar com os amigos? Dar um mergulhinho na piscina (que há-de ter uma lá em casa, de certeza…)? Encontrar-se com a/o amante? Intolerável esta intrusão na vida privada dos médicos…Não é para admirar que, com atentados deste calibre, os dirigentes, coitados, percam a cabeça e venham para os jornais dizer disparates.
Não sei escrever em regime de seriedade, mas, sinceramente, fora de brincadeira, não resisto a dizer o seguinte: é por ter havido sempre e por haver ainda muita gente assim, em Portugal, gente que se julga melhor que os outros, com direito a um sem número de privilégios, a regalias e tratamentos especiais, que o nosso país se transformou nesta pobre miséria atual, que é a chacota do mundo, a pedir esmola ao Brasil.
Portugal foi ao fundo. É por isso que nem consigo criticar as opções estratégicas de Paulo Portas. Ele sabia, por isso comprou os submarinos. POPEYE9700@YAHOO.COM

O NÔJO DA POLÍTICA

O NOJO DA POLÍTICA



HELIODORO TARCÍSIO

Sou admirador das crónicas de Cláudia Cardoso (C.C.) , que leio sempre. São como flores no triste, árido e desinteressante deserto que costuma ser, geralmente, a secção de opinião do Diário Insular, com poucas exceções.
No entanto, a mudança é radical quando ela assume a sua faceta política. Isso estraga tudo. Como não posso crer que uma pessoa, obviamente inteligente, culta e sensível, acredite nas patacoadas politicamente corretas que escreve, em defesa do seu partido, só posso pensar que o faz por dever partidário, por lealdade institucional.
É um bom exemplo a sua crónica do dia 15 de Abril. Do princípio ao fim, é um discurso completamente politizado (logo sem inteligência, liberdade inteletual e espírito crítico), em que, basicamente, faz a desculpabilização do seu partido e a culpabilização dos partidos da oposição.
Ora, eu, como indivíduo absolutamente apartidário, tenho outra leitura dos acontecimentos recentes. E como tenho C.C. na conta de uma pessoa bastante inteligente, acredito que, no fundo, tenha uma leitura semelhante. É por isso que a política é a suma arte da hipocrisia.
O nosso país chegou ao estado em que está, por motivos que não são difíceis de identificar, na generalidade: má gestão ou gestão danosa, incompetente e medíocre; péssimos políticos, gestores e governantes (as melhores pessoas do país, não vão, de modo nenhum, para a política, tem mais e melhor que fazer…); incapacidade para desenvolver o país e aproveitar os muitos fundos estruturantes que vieram da CE; corrupção generalizada e construção de um sistema de aproveitamento pessoal e promoção de interesses individuais e corporativos; favorecimento dos grandes banqueiros e empresários. Os protagonistas deste filme são os governantes do PS e do PSD, que estiveram à frente dos destinos do país, depois da nossa entrada na CE. Antes disso, penso que ainda vivíamos no rescaldo do 25 de Abril e o processo de construção de uma nova sociedade era ainda primário. Isto significa que os culpados têm nomes, muitos nomes aliás, mas à cabeça têm sempre de vir os líderes, porque são eles os responsáveis máximos e os rostos das políticas adotadas. Falo, portanto, de Cavaco Silva, de Durão Barroso, de Santana Lopes (coitada da criatura…), de Guterres, de Sócrates, etc. É evidente que concordo com C.C., quando diz que a principal motivação de Passos Coelho e do PSD em geral, é a tomada do poder; os barões do partido devem ter ficado positivamente enlouquecidos com a oportunidade que vislumbraram; penso que a nobreza de conceitos e atitudes é um valor totalmente ausente da atividade política. O CDS-PP é um partido oportunista, sempre na brecha, perseguindo qualquer oportunidade de participar da gamela do poder e fazer passar as suas pobres ideias conservadoras e retrógadas. A partidos como o BE e PCP interessa a política de terra queimada, a fim de, num cenário de caos, terem oportunidade de fazer passar ideias mais radicais, estranhas a uma maioria da população portuguesa e difíceis de implementar no mundo materialista e individualista de hoje. Tudo isto é verdade e provavelmente estaremos de acordo nisso. Mas nada disto invalida que Sócrates tenha sido o governante dos últimos seis anos. Com ele e com a sua corte, a dívida pública só fez piorar. E não me venham dizer que os culpados são os funcionários públicos, isso revolta-me até à medula. Mesmo que não o digam abertamente, são sempre eles que pagam as favas. Há quanto tempo os seus ordenados estavam congelados ou tinham baixíssimos ou mesmo falsos aumentos? E há quanto tempo estavam congeladas as admissões na Função Pública? Há quantos anos estavam já em vigor pretensas medidas de racionalização de despesas no setor público? O país continuou a afundar-se, com Sócrates, apesar dos claríssimos sinais, internos e externos, de crise iminente, porque, no fim de contas, nada realmente importante, foi feito para mudar a política portuguesa, pelo contrário, continuou-se com a mesma política canibal, alimentando o sistema de corrupção e desvario, com alguma megalomania ligeiramente paranóica pelo meio. Um país onde já muita gente passa fome e revira no lixo, pode construir TGV’s? Claro não, pelo menos não antes de implementar sistemas de CPT (Comida para Todos).
Agora, sobre o início da crise atual, tenho a minha própria teoria. Atualmente, qualquer bicho careta é comentador político, porque é que eu próprio não hei-de meter a minha colherada? Para mim, é evidente que a crise foi despoletada pelo próprio PS e por Sócrates, de forma intencional, com um aparente tiro no pé, o famoso episódio de novela sul-americana, que tem o nome de PEC4. Como Sócrates não tem nada de estúpido (os políticos de topo, regra geral não são estúpidos, são é competentes mentirosos) nunca cometeria um acto de aparente suicídio político. Tudo aquilo foi muito bem arquitetado e Passos Coelho, que ainda é um bocadinho imaturo e ingénuo como político, mordeu logo o anzol. Sócrates bem sabia que o país estava a bater no fundo, que o PEC4 não seria suficiente e que, em termos de saneamento financeiro e recuperação da economia, seria preciso um tsunami pior que o do Japão. Que Passos Coelho e, de uma forma geral, a pobre opinião publica portuguesa, nunca aceitariam. Assim, tudo se está a passar como Sócrates previu, nada disto é culpa dele, é culpa da oposição, sobretudo do PSD e ele pôde então montar, coerentemente, este cómico cenário de vitimização, a que temos vindo a assistir. Com o PS a cerrar fileiras, de lágrimas nos olhos, em torno do Querido Líder (tudo com muito medo de perder o poder e as suas benesses), Sócrates surge agora travestido de Novo Herói, sem culpas, ele próprio uma vítima inocente. Chama-se a isto baralhar e dar de novo mas sem mudar de jogo, claro. Portugal tem a cabeça no cepo, os culpados são os partidos da oposição e o carrasco chama-se FMI. Que nojo tudo isto me mete…
POPEYE9700@YAHOO.COM

OS EQUÍVOCOS DE MARANATHA

OS EQUÍVOCOS DE “MARANATHA”


HELIODORO TARCÍSIO

Já tinha percebido que em “Maranatha” as mulheres são devolvidas à sua condição natural de fêmeas reprodutoras e ao seu sagrado papel de mães. Prolongado por muitos anos, tantos quantos os do seu período fértil pois foi dito “crescei e multiplicai-vos”. Quando lhes secarem as trompas de Falópio, poderão sempre desempenhar o papel de avós, uma espécie de mães reaproveitadas. Nada há a temer, por todo esse tempo, os seus machos proverão o sustento da família, a menos que sejam alcoólicos crónicos ou repatriados. Mas nesse caso, entrará em acção a Caritas, para matar a fome às pessoas. Seja como for, todos se encontrarão aos domingos na santa missa, onde entoarão em coro hinos mais ou menos afinados. E se desafinarem, isso não terá importância pois perdoar é divino e nem consta que Jesus cantasse.
Também já tinha inferido, aqui há tempos atrás, que em “Maranatha” recuaríamos uns quantos séculos e o ensino voltaria a estar nas mãos de entidades religiosas. Não fica claro quais seriam mas algo me diz que muçulmanas não (definitivamente), nem budistas, nem evangélicos nem hindus… Algo me diz que se trataria de colégios católicos e que teriam o medonho crucifixo pendurado na sala, por detrás da secretária do Mestre. “Do Mestre” porque se as mulheres, essas tentadoras, não servem para sacerdotes, também não devem dar para professores. Além disso, quem cozinharia o caldo de couves, varreria o chão do lar e limparia o rabiosque da petizada? Enquanto os homens fazem essas coisas chatas de homens, governar, caçar, jogar futebol, beber…
Agora fiquei também a saber que o primado da razão, nascido no calor da Revolução Francesa não passa de uma série de “equívocos”…Quando olho para a história da Humanidade, consigo ver um percurso evolutivo, do qual faz parte, indubitavelmente, a Revolução Francesa, com todos os seus excessos e até contradições. Ao decepar os alvos pescoços aristocráticos, a Revolução Francesa cortou também com as tradições do Antigo Regime.
Passemos aos “equívocos” de “Maranatha”: “Não é óbvio que antes da Revolução Francesa só haja ignorantes”. Eu teria usado a forma verbal “houvesse” mas o cerne da questão é que no Antigo Regime, a maior parte das pessoas era mantida na mais negra ignorância e a Educação era ainda dominada pelo clero, que a usava sobretudo para se auto perpetuar, transmitir os seus valores e… para dominar a sociedade, de parceria com as elites governantes. E já que falámos de Revolução Francesa, é justo referir que as autoridades católicas não cortavam as cabeças aos investigadores heréticos. De forma muito mais natural e até higiénica, preferiam queimá-los vivos.
“Não é óbvio que as habilitações académicas façam uma pessoa melhor”. Pois não… ainda assim, eu prefiro um malandro culto e educado. Se tiver de ser assaltado, prefiro que não me magoem e me peçam desculpa pelo incómodo, apelando para a minha compreensão. Precisamente o que está a acontecer com Sócrates e o seu Ministro das Finanças. Lá está, assaltam-nos mas são bem-educados e tentam explicar-nos as suas razões, ao mesmo tempo que nos aparecem na TV limpinhos e penteados. Através de uma educação universal, aberta e imparcial, podemos, pelo menos, evitar os muitos crimes cometidos por ignorância, parente próxima do fanatismo.
“Já passaram duzentos anos e não é óbvio que os modernos tenham sido bem sucedidos”.
Dêem-lhes tempo. Os Antigos tiveram milhares de anos e não criaram nenhum paraíso, antes pelo contrário, tivemos que lhes cortar as belas cabeças para pararem de vampirizar o povo. Duzentos anos são um grão num arrozal chinês.
A Humanidade está a mudar. Os erros ainda são muitos e não sei se vamos a tempo. Mas há muita consciência a germinar. E esta, apesar de tudo, foi semeada na Revolução Francesa e na liberdade ensanguentada que as suas guilhotinas nos legaram.
Na verdade, eu sou um reles plebeu, nascido no século XX, que teve acesso à Educação, sem ter que vestir uma sotaina. Desenvolvi a minha capacidade de análise, o meu espírito crítico e o meu livre arbítrio. É por isso que, raios e coriscos, tenho de confessar, há coisas em “Maranatha” que me atraem. Se por lá não se aprecia esta civilização tecnológica, vazia de fé, escravizada pelas teorias neo-liberais, metida em shoppings, intoxicada pelo espírito competitivo e dominada pelos senhores do mundo que negoceiam petróleo, armas, drogas, dinheiro, poder e influência, então, contem comigo. Isto é, se prometerem que não me crucificam e que não tentam converter-me, pois a minha curiosidade faz-me manter aberto a todas as verdades que me aparecem pela frente. Daí ser inconversível.
Agora, se em “Maranatha”, eu puder passar os dias, com tempo aprazível, sem alterações climáticas, vestido com uma simples toga branca por cima de uns boxers, vagueando placidamente, de praça pública em praça pública, sem horários, a discutir filosofia e depois houver alguém que, na hora da refeição, me sirva uma sopinha, uma frutinha, um iogurte, sem me exigir que trabalhe, então, meus caros, “Maranatha” é bom e eu quero mais. POPEYE9700@YAHOO.COM

O SISTEMA

O SISTEMA


HELIODORO TARCÍSIO

Pobre povo português… tão inculto, ignorante, inconsciente, desinformado, tão inerte…
Quando penso na situação atual do nosso país, lembro-me de Dias da Cunha, antigo presidente do Sporting Clube de Portugal. Na época do seu exercício, era comum vê-lo a denunciar a existência de um “sistema” no futebol, uma organização sombria e tentacular, agindo no mundo do futebol profissional e que estava por detrás de numerosos crimes de corrupção, passiva e ativa, de subornos, de tráfico de influências e de tentativas de manipulação do fenómeno desportivo em benefício de determinadas equipas e em prejuízo de outras. Na altura, Dias da Cunha não tinha muito crédito e riam-se dele, não só porque o Sporting já tinha iniciado a descida que havia de o levar, inexoravelmente, ao profundo abismo em que se encontra agora, mas também devido aquele ar vagamente alcoolizado, de nariz apimentado e voz entaramelada , que ele exibia em permanência. O caso é que, algum tempo depois, os factos deram-lhe razão. Veio o processo Apito Dourado e a caldeirada que todos conhecemos, dinheiro a rodos, relógios suíços, viagens e meninas que faziam companhia. Existia mesmo um “sistema”, do qual as faces mais visíveis, mas não únicas, eram Pinto da Costa e o clã Loureiro. Lavou-se muita roupa suja, os media deliraram com o tema e, no fim, a montanha pariu um rato, como de costume, muito por culpa da medíocre justiça portuguesa. Pinto da Costa por cá anda, contente da Silva, um pouco mais velho, já que há coisas que nem ele consegue manipular. Depois de uma efémera passagem pelos braços da legítima, acabou de conhecer a sua segunda sogra brasileira. E sobre esta matéria cor-de-rosa já me calo, o Cláudio Ramos estará muito melhor informado do que eu, felizmente
A questão é que no nosso país existe um outro “sistema”, este muito mais grave, porque mexe com os interesses de todos nós e não só da tribo do futebol. Este “sistema” foi-se instalando devagarinho, depois do 25 de Abril, depois de passada a euforia revolucionária, em que coisas realmente grandiosas se passaram e alguns homens mostraram o seu melhor e o seu pior. Isto de derrubar um governo e conquistar um país com cravos a entupir as espingardas e uma frota de tanques que parava nos sinais vermelhos de Lisboa, é de morrer a rir , por um lado mas, por outro é profundamente comovente e bem português. Foi uma revolução à Raul Solnado. Regressada a soldadesca aos quartéis, secos os cravos vermelhos, acabaram-se os idealismos e, pouco a pouco, as ideologias foram cavando a sua própria sepultura, ao longo do processo, muito mais prático e complicado, de construção de uma sociedade que, dizia-se, seria democrática, livre e justa.
Passados todos estes anos, a sociedade portuguesa será, talvez, democrática, nos princípios mas não o é na sua prática. De forma insidiosa mas segura e imparável, foi-se montando um sistema que foi contaminando toda a vida pública da sociedade portuguesa, como se de um envenenamento por chumbo se tratasse. Montaram-no os políticos portugueses, especialmente os dos partidos social-democrata e socialista. Esta não é uma visão partidária já que, nesse aspeto, sou profundamente democrático. Desprezo, por igual, todos os partidos. Refiro-os porque, inegavelmente, estes partidos dominaram a actividade política nacional, desde o 25 de Abril até aos nossos dias. Os partidos do poder e os seus líderes, deputados, primeiros-ministros, governantes, presidentes da República, presidentes de Câmara e de juntas de freguesia, todos esses, uns com maiores responsabilidades do que outros, criaram o Portugal que temos hoje, no início do século XXI: um país de corruptos, de analfabetos, de ignorantes e incultos, com uma agricultura arrasada, uma fraca pecuária, uma pesca que vive dias de amargura, uma indústria na bancarrota, um comércio falido e uma sociedade pobre e exaurida. O sistema assenta na exploração da maior parte da sociedade portuguesa, que aufere baixíssimos salários e é sobrecarregada com impostos e taxas, que uma maquiavélica administração fiscal refina e alarga cada vez mais. O sistema foi montado para beneficiar os políticos e os seus amigos, familiares e parceiros, que são empresários, banqueiros, juristas, manda-chuvas de toda a ordem. É por isso que, enquanto a maior parte da população ia vegetando, ia-se “desenrascando”, muito à portuguesa, grandes fortunas foram crescendo e todo o tipo de esquemas e fraudes se foram montando, sob uma aparência “democrática”. Foi-se montando assim o país dos elevados vencimentos dos políticos, das reformas douradas, das negociatas obscuras, da destruição da costa portuguesa pelos lobbies da construção civil, da escravização das pessoas aos lobbies da indústria automóvel e petrolífera, do cortejo interminável dos amigos dos políticos e dos ex-políticos colocados em empresas públicas com ordenados principescos, dos submarinos de Paulo Portas .Lá de vez em quando, a Justiça faz de conta que funciona, para manter as aparências e homens como Dias Loureiro, Isaltino de Morais, Amando Vara e outros “inocentes” que tais, saltam para a ribalta. Mas, inevitavelmente, as coisas acabam por se acalmar, até porque há muitas manobras que o permitem, com a conivência do nosso sistema judicial. Isto funciona porque o povo português, como se soube recentemente, conta com a maior percentagem de analfabetos da Europa e é tradicionalmente amorfo, inerte, desinteressado e fácil de enganar. É com essa apatia que os políticos contam, para continuar a desenvolver os seus esquemas. É claro que o povo português não é estúpido, de uma forma geral. Mas é crédulo e relaxado e, mesmo quando se apercebe das maroscas (graças ao poder atual dos media), reage preferencialmente de duas formas: desinteressa-se e concentra-se em sobreviver e “desenrascar” a sua vida ou, tenta perceber como pode, ele também beneficiar dos esquemazinhos e ganhar a “sua parte”. E assim vai andando a democracia portuguesa, quase dez milhões a trabalhar para sustentar uns poucos milhares de chicos-espertos.
E como pouco foi feito, ao longo do todo este tempo, para educar a população e desenvolver material e socialmente o país, quando este bate no fundo, por sucessiva administração danosa, os políticos, mentirosos e pérfidos, fingem que estão dispostos a reformar e têm o cinismo de baixar salários que sempre foram baixos e que há muitos anos vinham a ter aumentos praticamente nulos ou falsos e aumentam a carga fiscal, que já era uma das mais pesadas do mundo. Recusam a intervenção do FMI, apelando, com toda a hipocrisia ao orgulho nacional, quando, na verdade, sabem que esse último recurso, que cada vez mais reputados especialistas em economia classificam como inevitável, muito provavelmente os derrubaria do poleiro.
Hoje, 9 de Março, a minha última esperança chama-se 12 de Março. Que esse movimento, com origem em estudantes sem futuro, recém-formados sem emprego e desempregados de todos os tipos possa capitalizar o descontentamento que grassa no país e possa, finalmente, levar os portugueses a protestar em força, mostrando que têm capacidade crítica, amor próprio e que não têm sangue de barata.
Não sei que sistema pode funcionar. Mas tenho a certeza absoluta que este não presta para nada. De um ponto de vista civilizacional e filosófico, acredito num sistema completamente diferente, sem partidos políticos, sem políticos profissionais, sem barões . Mas o mundo ainda não está preparado para isso. Por ora, basta-me acreditar que, para criar um mundo novo, é preciso destruir o velho. É um processo de renovação, só aparentemente é mau. Para instaurar a democracia possível em França (um dos países mais democráticos do mundo – veja-se o problema atual de Jacques Chirac…), foi preciso o povo revoltar-se e cortar o pescoço aos aristocratas do mundo que então se extinguia… Se fosse eu a Sócrates, nos próximos dias não saía muito de casa e, se saísse, andava com uma coleira daquelas das operações à coluna. POPEYE9700@YAHOO.COM

NADA É PARA SEMPRE

NADA É PARA SEMPRE


Heliodoro Tarcísio



Recentemente, na edição do DI de 18 de Fevereiro, um prezado articulista escreveu sobre temas que me são caros, amor, casamento e divórcio. Para estar à mesma altura, ponderei seriamente identificar-me no final deste artigo como formador de Náutica e Navegação. Não tem nada a ver ? E “professor de Língua Portuguesa” tem ? Ainda se fosse jurista, político profissional, padre, pastor ou psicanalista… Ah, já sei, deve ser porque, na sua qualidade de professor julga lidar amiúde com as consequências das pobres famílias destroçadas pelos malefícios do divórcio, esse tenebroso inimigo da sociedade, só comparável ao vício da droga, à criminalidade, ao relativismo e claro, ao casamento homossexual.
Seja como for, o artigo em questão era até uma peça de joalharia, não exatamente uma jóia preciosa mas também não tinha nada de quinquilharia. Romântico, enternecedor, com um toque literário até, poderia ter-me humedecido os olhos se não veiculasse perspetivas com as quais estou em completo desacordo.
Já antes me referi a este assunto nas páginas deste jornal. Mas como as pessoas se casam e, felizmente, se divorciam, todos os dias, este é um tema sempre atual. Que o caríssimo articulista principia por tratar com jurídica seriedade, apontando um aparente paradoxo legal: não é possível, atualmente, perante a lei, casar para sempre. E eu acrescento, ufa, ainda bem! Minha rica lei, que em tantas ocasiões nos castigas e nos vergas a espinha, por vezes também tens uns rasgos de inteligência, compaixão e humanidade. Nem toda a legislação há-de ser sobre mais impostos e taxas, menos regalias e apoios sociais e cortes nos ordenados. De vez em quando, algum legislador desalinhado há-de se preocupar com a felicidade das pessoas.
Bom, por muito riquinho que seja, o texto publicado só aparentemente é inteligente. À questão colocada, sobre a forma de efabulação, relacionada com a possibilidade de escolher entre duas formas de casamento, a atual, que pressupõe um fácil divórcio e uma outra, que só não é fantasiosa porque é quase decalcada de um triste passado recente e implica um compromisso inquebrantável para toda a vida, respondo sem hesitação: eu próprio escolheria a segunda hipótese. Pois quem é que não casa cheio de boa vontade e de ilusões, de peito aberto e sem medo ? O pior é o que vem depois. É que, para saber bem o que é casar , é preciso dar esse passo e ficar por lá uns tempos. “O amor é louco”, escreve o autor. Talvez seja por isso, que tantos protagonistas de casamentos infelizes saíam dos consultórios dos psiquiatras encharcados em tranquilizantes e anti-depressivos, quando não iam mesmo parar a um hospício… Não é que agora isto não aconteça. Não há nada como um mau casamento para avariar os fusíveis de uma pessoa. É pior ainda que a humidade. Só que antes, a solução óbvia, o divórcio, era um bico de obra. E agora, é fácil e barato. Que não, clamam alguns, nunca devia ter deixado de ser difícil e demorado. Idealmente, devia ser mesmo impossível. Só morrendo.
Fico cansado de tentar explicar as coisas a esta gente. O mal não está no divórcio. Este é , sobretudo, uma solução. Normalmente, é a única que realmente funciona. Quem condena o divórcio, ignora por completo, o quanto é preciso ser inteligente, emocionalmente maduro, compreensivo, tolerante e compassivo, para reconhecer e aceitar, pacificamente, os sinais do fim. O quanto é preciso amar a outra pessoa para ser capaz do supremo gesto de amor: vai à tua vida e sê feliz com alguém diferente de mim. Nada é para sempre na vida. Nem sequer o Sol. Porque deveria sê-lo o casamento ?
Ser contra o divórcio é também fazer de conta que não se sabe que a maior parte dos divorciados constitui outras famílias que, muitas vezes, se relacionam com a primeira, devido aos filhos, gerando uma enorme e feliz teia de relações sociais. Porque é que essas novas famílias não hão-de ser felizes e hão-de ser piores que as outras ? O divórcio é a causa de problemas sociais graves ? Perdoem-me mas isso é mentira. As causas dos problemas sociais e familiares são bem mais complexas do que isso. O divórcio é uma simples consequência. Acredito que se relacionem sobretudo com a loucura da Humanidade, do mundo que construímos, sem referências éticas, materialista, egoísta, poluente, corrupto, assente na trilogia do dinheiro, do poder e do sexo. Mas, como é bem mais fácil arranjar um bode expiatório…salta o desgraçado do divórcio.
Como antigo professor (que, no fundo, nunca deixamos de ser), discordo em absoluto que um professor “(…) espera, mais tarde ou mais cedo, problemas num aluno cujos pais se divorciaram”. Que afirmação mais infeliz e redutora. Ainda se tivesse escrito que é de esperar problemas em alunos cujos pais já não se amam…
Não me posso alongar muito mais, estou bem avisado pelo DI quanto ao tamanho dos meus artigos. Mas, nesta tribuna, não posso deixar de oferecer o meu testemunho pessoal nesta matéria. Duplamente divorciado, casado pela terceira vez, tenho três filhos e um quarto a caminho. Se eu fosse sueco, já tinha a vida feita. Com sou português, à medida que vou gerando filhos, vão-me diminuindo o ordenado. Quanto aos meus filhos, a crer no nosso articulista, eles deviam andar cheios de “problemas”. Pois bem, foram sempre crianças estáveis e felizes, absolutamente normais, tirando as normais crises de adolescência. Nunca consumiram drogas (não me refiro à droga oficial do regime – o álcool), a mais velha já se licenciou e o outro a seguir está no 1.º ano da faculdade. Estão ótimos. Quanto á terceira, filha de outra mãe, é uma doce menina de 12 anos e espalha encanto e felicidade por onde passa. São filhos de pais divorciados. Mas talvez porque aconteceram divórcios muito cedo, eles não assistiram à degradação das relações familiares, não participaram de cenas de agressão, física e psicológica, violência, ódio e desamor. Entre nós, imperou sempre o respeito e nunca deixou de haver convivência regular e amor de pais e filhos. Por isso, eles nunca tiveram “problemas”. Cresceram felizes. Não são frutos apodrecidos. Apesar das vicissitudes da vida, a gente ama-se e vamos continuar assim. Como se vê, até radica tudo no amor, o único poder que deveria reger o mundo. Mas é o amor verdadeiro, espontâneo, generoso, benévolo e saudável, não é o amor obrigatório, imposto pelas leis , sujeito à sanção familiar e exposto à vigilância atenta das vizinhas da nossa rua. Não é, enfim, o amor contra natura.
Uma última observação: o aço, mesmo inoxidável, está a ficar fora de moda, como símbolo de resistência. Temos de nos manter atualizados. Aconselho a fibra de carbono. POPEYE9700@YAHOO.COM

MUNDO NOVO

MUNDO NOVO



HELIODORO TARCÍSIO


Os últimos tempos têm sido marcados por grandes convulsões. Política e sócio económica em Portugal, sísmica e nuclear no Japão. Apesar de tudo, ainda saímos favorecidos. Não me desagradam de todo os tempos das grandes convulsões. Não é que tenha qualquer prazer no sofrimento das pessoas, longe disso. Mas a Humanidade precisa desses fenómenos para aprender e evoluir. Foram necessárias as terríveis hecatombes das duas Guerras Mundiais, para as pessoas perceberem até que ponto podiam chegar os resultados de um conflito generalizados com as armas sofisticadas que a Humanidade já possuía. Ninguém acha possível que algo de semelhante possa ocorrer no contexto atual, em que se tenta sempre privilegiar a via do diálogo. Claro que não estamos livres de alguma loucura de regimes radicais, como os fanáticos do Irão ou os doidinhos da Coreia do Norte. A crise nuclear do Japão que, no momento, em que escrevo, está muito longe de encerrada, já está a ter o efeito positivo de fazer repensar o recurso a um tipo de energia extremamente perigosa e instável, que tem, inclusivamente, poder para destruir o mundo, de diversas formas.
Pensando em Portugal, a minha maior angústia tem a ver com a falta de alternativas. As crises políticas e sísmicas até podem ter um certo paralelismo. Derrubar tudo, para construir de novo. Mas construir com o quê ? Com a mesma tijoleira e argamassa? Irá tudo ao chão de novo, é uma questão de tempo. Com todo o distanciamento partidário que quem faz o favor de me ler, sabe que tenho, afirmo que não há, em rigor, qualquer diferença entre socialistas e social-democratas. Mais preocupação (relativa, muito relativa, como temos visto) com os apoios sociais para uns, mais liberalismo económico para outros. E cessam aí as diferenças, a fauna que por lá pulula é, essencialmente, da mesma família animal. Têm outro rótulo mas são os mesmo políticos profissionais, sedentos de poder e benesses, com o seu imenso cortejo de amigos e oportunistas, de lambe-botas e sabujos, de carreiristas de toda a espécie, de empresários sem escrúpulos e de banqueiros, que até podem ser do Opus Dei mas que acabam fazendo as mesmas patifarias que os outros. Passos Coelho passa por ser, no momento, o campeão das hostes dos deserdados da sorte e dos insatisfeitos. Ainda por cima exibe aquele ar de betinho bem comportado, de cristão liberal e genro ideal. Mas, infelizmente, não tenho muitas dúvidas. Não acredito que possa ser O POLÍTICO, realmente corajoso e de elevado sentido ético de que o país precisava agora. Alguém que arrasasse o sistema, a que já me referi nestas páginas, que domina e apodrece o país, montado ao longo dos anos, essencialmente pelos políticos social-democratas (Cavaco Silva incluído, sem dúvida) e socialistas. Nenhum lobo vai trair a sua alcateia. Nem os lobos mais velhos deixariam.
Do que realmente precisávamos era de um mundo novo. É a minha utopia privada mas vou insistir nela enquanto for vivo. Uma pessoa nunca perde o direito de sonhar. No meu mundo, há democracia, sem dúvida, mas não há políticos profissionais nem o poder está entregue a partidos políticos. Sei que chego ao cúmulo do lirismo quando digo que nesse mundo, o maior poder seria o do amor e não do dinheiro. O amor genuíno e universal, não o que é formalizado e ditado pelas religiões instituídas. Como a religião católica “meus filhos, amem-se uns aos outros mas, atenção, é homens com mulheres, entendido ???”.
No meu mundo, o transporte seria basicamente o coletivo, à base de energias limpas. Se não somos capazes de as criar, então ficamos quietos e esperamos até ficarmos mais inteligentes. Deixava o petróleo onde está. Tenho a certeza que a natureza não o criou para a gente o transformar em plástico e espalhá-lo por todo o mundo. Chega de esburacar a terra. Nós estamos, nitidamente, no mau caminho. Só inventamos coisas que estragam, que poluem,, que já ameaçam, até, destruir o nosso planeta e a sua luxuriante vida, que levou tantos milhões de anos a evoluir. Que porcaria de civilização que somos…
Precisamos realmente de um mundo novo. Um dia destes farei uma proposta a sério e garanto que será muito diferente deste e do de Maranatha também. Talvez tenhamos que arrasar o mundo antigo. Talvez seja necessário um grande sismo e uma data de tsunamis. Os próximos tempos não serão de imobilismo e pasmaceira. Vai haver mudanças. Isso já é bom. E mesmo, sem sismo, tenho a grata impressão que vamos , pelo menos, ter um pequeno e muito cirúrgico tsunami, que vai levar de arrasto, Sócrates Pinóquio e o seu insuportável e trombudo Ministro das Finanças. Ah, lamento ter desiludido quem, no principio deste artigo, pensou que ia ler uma analise política à maneira. Não sou desse filme. Sou de um filme de autor, daqueles obscuros, pouco conhecidos e não comerciais. POPEYE9700@YAHOO.COM

CRÓNICA DISTO E DAQUILO E DE ETECETRA E TAL

CRÓNICA DISTO E DAQUILO E DE ETECETRA E TAL






HELIODORO TARCÍSIO


Estou de volta. Lamento mas é a pura verdade. Para consolo de alguns e desprazer de outros. Paciência, nem Jesus Cristo agradou a todos e eu sou apenas um pobre mas feliz pecador. Antes a dentada de um cão rafeiro que a indiferença de um gato persa. Hoje, vim ver se meto uma pincelada de cor, desvairada e inconsequente, neste cinzento e invernoso panorama local. Afinal, regresso de uma temporada nos trópicos, de onde trouxe uma perna direita nova, livre de um inútil metro de safena mais dilatada que um pipeline de petróleo e de um quilograma (literal) de veias varicosas. A perna esquerda está igualmente queixosa mas ainda não chegou a vez dela.
Aqui pela terrinha, tudo como dantes, tirando os novíssimos bancos metálicos da Rua do Desespero, comprados num saldo de sobras da guerra no Afeganistão. Aquela rua já era uma anedota mas agora ganhou estatuto bastante para entrar nos Malucos do Riso. Pobre Teatro Angrense, merecias muito melhor…
De resto, a habitual esterqueira da baixa política local, os comentários sobre a crise, os conselhos para poupar, desde voltar a plantar couves no quintal até retirar os velhos dos lares, para aproveitar a pensão deles. E ainda, essa pungente questão da Humanidade, introduzir ou não modificações na Praça Velha, discutida nos telejornais de todo o mundo, a par do desemprego norte-americano, da crise nos mercados financeiros e da teimosia piramidal de Mubarak. Mas não vou meter-me nessa história. Gente muito mais fina, importante e inteligente já botou faladura sobre o assunto.
Por falar em Praça Velha, passei pela dita como sempre, no regresso ao trabalho, na segunda-feira de manhã. Fiquei preocupado com o que vi. Ou melhor, com o que não vi. Não estava lá o Joe Karaté, sentado no seu banquinho. Pensei para com o meu ziper, “tralalá” lhe acontecido alguma coisa, no meio de tanta desgraça... Sei lá, doença súbita, rapto por OVNI, desaparecimento simples, até podia ser que algum “amigo” do Facebook, mais velho, o tivesse levado a passear a Nova Iorque… Mas na hora de almoço, suspirei de alívio. Tudo normal, tudo como dantes. Discutia-se animadamente a jornada futebolística do fim de semana fora do Café Aliança e num banquinho da Praça Velha, lá estava o bom, o velho, o fiel Joe Karaté, sentadinho, mais agasalhado do que o vira em Outubro, antes de me ausentar, de cabeça enfiada nas mãos, como sempre, em viagem pelo planeta que é só dele e onde talvez seja feliz.
Confesso que passei o dia num estado de euforia. Cumprimentei toda a gente, desejei um Feliz Ano Novo e falei pelos cotovelos. Apesar de amar o Brasil e de lá ter deixado a minha esposa e na barriga dela, a nossa bebé, Julinha, sentia-me feliz por estar de volta à paz e sossego da santa terrinha, depois de três meses numa cidade que podia ser maravilhosa, S. Salvador da Bahia mas que está entulhada de lixo, entupida de plásticos, invadida por hordas de mendigos, infestada de criminosos e “prefeitamente” lixada por um prefeito incompetente e pateticamente agarrado ao poder, à imagem de tantos dos nossos políticos, admiradores de Hugo Chavez.
O clímax do meu dia foi quando passei na rua da Sé e quedei-me a observar um vídeo das marradas de 2010. Na Fonte de S. Sebastião, dois catitas levavam impiedosas cornadas no rabo, entalados na entrada de uma tasca. A cena era hilariante, embora corriqueira. Mas eis que o bicho segue adiante e se vêem os rostos das pobres vítimas. Uma delas era o Dr. Adolfo Lima, antigo secretário regional da Agricultura e Pescas, o tal que era contra a proibição da caça a baleias e golfinhos. Confesso que vibrei. Vou ver de novo, várias vezes. Vou comprar. Vou divulgar pelo mundo. Para mim, que acredito na reincarnação, naquele toiro está a alma de um antigo golfinho que agora voltou, equipado com chifres, para dar o devido castigo à criatura e trazer alguma justiça ao mundo. Bendito animal, bicho valente e sábio, meu rico cornudo, que possas viver por muitos anos ainda, feliz, cobrindo vacas boas todos os dias nessas pastagens do mato, com muita erva verdinha e água fresca de sobra.
Ai, eu queria tanto ser capaz de escrever sobre questões sérias, política, economia, coisas assim. Mas não é a minha sina nem a minha arte. Para compensar, vou contradizer-me ligeiramente e afinal vou referir-me ao problema da Praça Velha, que é uma coisa muito, muito séria. Meus caros, seja lá o que for que resolvam fazer na Praça Velha, perguntem primeiro! Não façam burrices, como no caso das marinas, onde não perguntaram nada aos pescadores e marinheiros locais. Se querem mudar os bancos da Praça Velha, perguntem a quem os usa. Falem com o Joe karaté. POPEYE9700@YAHOO.COM

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O PRÍNCIPE PINÓQUIO


O PRÍNCIPE PINÓQUIO



HELIODORO TARCÍSIO


PEC 3: austeridade, redução dos salários, subida de impostos diretos e indiretos, aumento de todas as cores em tudo o que é ruim para a vida das pessoas.
Corrijam-me se estiver errado mas a principal razão para termos aderido à CE, em 1986, não era a aproximação gradual aos padrões de vida europeus ? Definam-me “gradual” com urgência, por favor. É que estou gradualmente ficando mais velho e agora surgiu-me uma secreta esperança de parecer jovem por muito mais tempo, quiçá eternamente.
Baixar salários? Não tínhamos já baixíssimos salários, que há muitos anos praticamente não eram aumentados, de facto? Aumentar os impostos? Mas não tínhamos já uma elevadíssima carga fiscal? Resolver o problema do deficit das contas públicas? Mas a estratégia para atingir esse fim não era, precisamente, o desenvolvimento da economia portuguesa? E não é certo que as anunciadas medidas de austeridade vão, mais do que estagnar, causar a retracção da nossa pobre economia? Do que nos serve ter um país com as contas em dia mas sem a mínima possibilidade de se desenvolver e em permanente retracção?
Claro que, se olharmos para o país como uma imensa mercearia, com um rol de deve e haver, é tudo muito compreensível. A coluna do deve é muito superior à do haver. O merceeiro é um mau merceeiro. Não convém fechar a mercearia, não podemos prescindir do pão. Mas podemos sempre demitir o merceeiro. Ou chicoteá-lo em praça pública. Eu preferia chicoteá-lo. Sei lá, podíamos perguntar ao Khadafi o que diz a lei islâmica num caso destes. Mentira, má gestão e assalto. Só para termos uma ideia, um termo de comparação…Talvez o chicote não seja apropriado mas quem sabe se não conseguimos um singelo apedrejamento. Afinal, ter lixado um país inteiro, é crime muito pior do que um corriqueiro adultério.
Olho para o estado da nação e acho isto tudo muito parecido com a Inglaterra medieval no tempo do Robin Hood. Lá, enquanto o rei Ricardo Coração de Leão se entretinha a matar mouros e a saquear castelos franceses, o país vegetava na mais negra miséria e o malvado Príncipe João, com a colaboração do pérfido xerife de Nottingham, sobrecarregava o povo de impostos, levando-lhe a maior parte das colheitas. O bispo guloso levava o resto. As pessoas morriam à fome.
Hoje em dia, felizmente, a Igreja já não pode rapinar nada e está, ela própria, sujeita a viver de esmolas. Mas, na ausência de um rei decente, andámos estes anos todos a ser desgovernados pelo Príncipe Pinóquio, um fidalgo de linhagem suspeita, provavelmente ilegítimo, com um duvidoso título de nobreza, aparentado com Cyrano de Bergerac ( o do grande nariz) pela parte da mãe e criado pelo carpinteiro Gepeto. O seu xerife de Lisboa encarrega-se de levar à prática os seus desígnios, sem piedade e com mão de ferro. Vivemos com pouco dinheiro, sobrecarregados de impostos, à beira de passar fome e ainda vai piorar. Já vi isto em qualquer lado. Precisamos de um herói popular, de um Robin Hood, alguém que roube aos ricos (eles) para dar aos pobres (nós). Um José das Matas, com os seus companheiros, um João Pequeno, um Tó Esquivo, um Manel Sorrateiro e um Chico Esperto. E se tem que haver um Frei Tuck, , os nossos religiosos mais colunáveis não me parecem elegíveis. Nem o padre Melícias e muito menos o cardeal Policarpo. Lembrei-me do padre Fontes, que há 25 anos organiza o fascinante Congresso de Medicina Popular em Vilar de Perdizes. Parece-me alguém muito alternativo e New Age. E, se não souber manejar um cajado, pode sempre optar por uma toxina virulenta à base de plantas, como arma. Matas é que o fogo não deixou muitas, para eles se acoitarem e temo mesmo que haja problemas com a madeira para fazer as flechas. Além disso, terão de viver da caça e aí vão-lhes cair em cima os esbirros do xerife de Lisboa, mais até por estarem a caçar em zonas de caça associativa ou turística, já que até os baldios foram roubados ao povo. Quanto à Lady Marion, temos uma Maria em Belém mas, com um pouco de sorte e paciência, talvez seja possível encontrar uma dama mais interessante.
Acreditem-me, isto já não vai ao seu lugar com greves gerais. Talvez com porrada geral. O meu pacifismo nato, o meu instinto de sobrevivência e uma preciosa cobardia impedem-me de me alistar. Apesar de eu fazer parte do alvo a abater, a classe média portuguesa e do inimigo público n.º 1, o funcionalismo nacional. Mas se não estou de corpo com essa empresa, estarei, pelo menos, de alma. E se esse exército chegar a ter Armada, eu e o meu “Popeye” estamos às ordens.
Provavelmente, excedi-me neste artigo. Não, excedi-me mesmo, tenho a certeza. Reconheço agora o meu erro. Vou ter de me desculpar perante os meus leitores. Não devia, de modo nenhum, ter chamado “príncipe” ao Eng.º Sócrates. É lamentável. Asseguro que não voltará a acontecer.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

VIDA DEPOIS DA VIDA


VIDA DEPOIS DA VIDA



HELIODORO TARCÍSIO

Os falecimentos de crianças ou jovens na flor da vida são os mais difíceis de aceitar e é comum que abalem fortemente a fé religiosa das pessoas envolvidas, criando amargura e ressentimento pela aparente injustiça do Deus em que crêem. Lembram-nos também, mais do que nunca, a fragilidade da condição humana, a certeza da nossa própria morte e o mistério a ela associado.
A possibilidade de uma vida espiritual e da existência de uma alma, independente do corpo físico, são temas que sempre me apaixonaram e que estão, frequentemente, presentes em muitas das minhas leituras.
Recentemente, li a versão eletrónica do original da conhecida obra de Raymond Moody, Life After Life (Vida Depois da Vida em português). Este autor é um conceituado médico americano com licenciaturas e doutoramentos nas áreas da Filosofia, Psicologia e Medicina (Psiquiatria), nascido em 1944 e que vive atualmente em Las Vegas, EUA.
Moody não tinha qualquer relação específica com a questão da sobrevivência espiritual à morte do corpo físico, nem nenhuma crença nessa área. Contudo, no decurso da sua prática profissional, confrontou-se com testemunhos de muitas pessoas que estiveram em situação de morte clínica, devidamente comprovada e foram ressuscitadas. As histórias dessas pessoas evidenciavam muitos traços comuns. Isso levou Moody a desenvolver um estudo nessa área, a partir dos relatos de 150 pessoas, recolhidos pelo próprio, com um traço comum inquestionável: a preservação da consciência individual após uma situação de morte clínica ou “quase-morte” (near death), termo criado pelo próprio Moody em 1975.
Aparentemente, esta pesquisa goza de credibilidade científica, uma vez que, para além da apresentação dos dados objetivos, coloca várias hipóteses possíveis e equaciona a sua própria refutação.
Uma das mais importantes conclusões de Moody é que, apesar da grande disparidade das pessoas envolvidas (em termos de idade, crença religiosa, educação e nível cultural) e embora cada relato, no seu todo, fosse único, era possível identificar uma quantidade apreciável de traços comuns à maioria. Muito sumariamente, esses traços são os seguintes:
Inefabilidade: dificuldade de descrever por palavras as experiências vividas.
Ouvir: memória de ter ouvido tudo o que foi dito pelos médicos ou outras pessoas presentes no local do evento ou próximo dele, incluindo a constatação médica da morte clínica.
Paz e tranquilidade: sensação de paz infinita e absoluta tranquilidade durante a ocorrência.
Ruídos: aparentemente, é comum ouvirem-se ruídos, sempre na parte inicial da ocorrência, que vão desde zumbidos a coisas mais estridentes e até mesmo música.
Túnel: também no início do processo, é muito comum a sensação de estar a viajar ou a ser “puxado” através de um ambiente estreito e escuro.
Ver o próprio corpo: é muito comum, as pessoas verem o seu próprio corpo físico (numa cama de hospital, por exemplo), ao mesmo tempo que têm a percepção que continuam a ter alguma espécie de corpo, não muito diferente do físico mas constituído por outro tipo de matéria.
Ver outros: é comum surgirem outras pessoas, que parecem ter uma missão de acolhimento e guia, que são, quase sempre, pessoas já falecidas e conhecidas do indivíduo em questão.
Ser de luz: é comum aparecer uma figura que quase toda a gente designa por algo como “ser de luz”, que comunica (telepaticamente, sem verbalização) com a pessoa e que transmite, invariavelmente, uma sensação de amor e aceitação incondicional.
Revisão da vida: o “ser de luz”, quando aparece, procede sempre a uma revisão de toda a vida da pessoa, que é feita numa escala de tempo inimaginável para os humanos e que é muito completa e realista, não comportando, todavia, qualquer censura ou punição, apenas avaliação e aprendizagem.
Limite ou fronteira: parece haver um limite ou fronteira, percepcionado de diferentes maneiras mas que significa um ponto de não retorno, depois de transposto.
Resistência ao regresso: depois de uns primeiros instantes de incredulidade e desespero perante a morte, o traço comum é, invariavelmente, a sensação de felicidade e de não querer voltar à vida física.
Relatar a experiência: não parece ser fácil encontrar pessoas disponíveis para relatar as suas experiências de quase-morte; enquanto elas próprias as sentem como algo muito real e verdadeiro, rapidamente percebem que o mundo à sua volta, não tem a menor disponibilidade e boa-vontade para ouvir e muito menos acreditar nos seus relatos.
Efeitos na vida: muitas das pessoas entrevistadas dizem que a sua vida mudou muito, para melhor, depois do incidente, que passaram a ser muito mais calmas, mais filosóficas e que a sua visão da vida se aprofundou e alargou; evidentemente, deixaram de recear a morte, pois passaram a acreditar numa vida para além dela.
Corroboração: curiosamente, muitas destas histórias puderam ser corroboradas, pelas pessoas presentes no momento das ocorrências, nomeadamente em relação ao que a pessoa, em situação de morte clínica, diz ter visto e ouvido.
Evidentemente, Raymond Moody é agora um crente na vida depois da morte, assim como na reencarnação e desempenha um papel importante na divulgação destas ideias, ao mesmo tempo que ajuda muitas pessoas.
A minha própria intenção, ao escrever este artigo, é apenas chamar a atenção para estas temáticas, ajudar as pessoas a refletir sobre temas filosóficos e lançar uma semente de esperança. Eventualmente, ajudar alguém na sua dor pessoal. Eu próprio, nunca “morri” até agora e nunca vi fantasmas. A minha aproximação a estes temas é tanto intuitiva quanto racional e a minha perspetiva é imensamente razoável. Ou há algo depois da morte ou não há nada. Se há, ufa, que alívio. Se não há, também cessará toda a dor. Porém, acredito que haja.
Devemos olhar com respeito para esta obra e estes testemunhos. Afinal, trata-se de pessoas comuns, Josés e Fátimas, que estiveram às portas da morte e regressaram. Ouçamos o que têm para nos contar, com o espírito aberto.
O famoso médium brasileiro, Chico Xavier, conta-nos que, numa situação de intenso medo de morrer (a bordo de um avião sob turbulência severa), o seu guia espiritual, Emmanuel, lhe apareceu e lhe disse que morresse com educação, se tivesse de morrer naquele dia. Tal como Chico Xavier, também penso que deve ser difícil morrer com educação. Com certeza que morremos agoniados, doloridos, urinados, vomitados e completamente acagaçados.. Mas já acredito ser possível morrer com conhecimento. POPEYE9700@YAHOO.COM

DIA EUROPEU SEM CARROS – 2010


DIA EUROPEU SEM CARROS – 2010








HELIODORO TARCÍSIO



E lá passou, de mansinho, o 11.º Dia Europeu Sem Carros. As reacções têm sido quase sempre as mesmas. Muitos não entendem, outros não concordam e há muita gente que, mesmo concordando, acha “que não vale a pena”.
Para mim, vale sempre a pena. Trata-se de uma acção anual de sensibilização para que toda a gente, mas especialmente as crianças, possa aperceber-se da beleza e da paz de um mundo sem automóveis, pelo menos no coração das cidades.
Na verdade, o mundo, salvo raras exceções, não precisa de automóveis particulares. Eles constituem uma necessidade perfeitamente artificial, mais uma triste criação humana. Existem sobretudo para enriquecer os donos de dois dos maiores poderes do mundo, o lobby dos donos do petróleo e o lobby dos construtores e comerciantes de automóveis. Claro que vender automóveis é uma atividade perfeitamente legal e digna. Os comerciantes são nossos amigos, familiares ou…somos nós próprios. Refiro-me a um nível muito mais profundo.
A monstruosa circulação constante de automóveis, na maior parte do mundo dito “civilizado” ou “urbanizado”, é um dos mais relevantes fatores que contribuem para o aquecimento global e que estão a matar e a envenenar o nosso mundo, agora já não lentamente. É um dos traços mais marcantes do nosso modelo de civilização, caraterizado por uma pressa aflitiva e inexplicável, para ir sempre mais depressa a todo o lado. É uma espécie de vírus de loucura coletiva.
Ao nível local, as nossas pequenas ilhas podiam ser idílicas. Mas temos vindo a saturá-las de uma forma absurda com tráfego automóvel, a um ritmo sempre crescente. Lembro a Terceira da minha infância e sinto o ambiente urbano insuportavelmente poluído, barulhento, feio, agressivo… Acho que foi também por isso que vendi o meu último carro em 2006 e não voltei a adquirir outro. Fartei-me de automóveis artificialmente caros, de taxas e mais taxas, de multas, de seguros mafiosos obrigatórios, de problemas de estacionamento, de gastos de combustível, de contas de oficina, de pombos a defecar-lhes em cima, da tirania da pressão social para manter o carro lavado (o conhecido “lava-me porco”). Passaram 4 anos e continuo a fazer calmamente a minha vida, como toda a gente, embora o mundo à minha volta, por falha das autoridades e por falta de educação das pessoas, seja cada vez mais hostil para com os peões. Andar a pé hoje em dia, em Angra, nos arredores e na ilha em geral, é cada vez mais perigoso e a Polícia de Trânsito está completamente concentrada nas multas dentro dos perímetros urbanos. Entretanto, no Largo da Silveira e no Caminho do Meio de S. Carlos, por exemplo, cresce o estacionamento abusivo e selvagem em cima dos passeios, atirando os peões para a rua. Talvez nem precisasse polícia se nos passeios fossem instalados marcos e correntes, que impedissem o estacionamento fora das zonas delimitadas.
A nível global, a situação piora constantemente. Países muito populosos, como a China e a Índia, com uma fortíssima tradição de transporte não poluente, a pé, de búfalo, de bicicleta, estão agora, alegremente, a equipar os seus cidadãos com carritos. A mensagem, louca, irresponsável, maliciosa, é que todos podem ter um carrito… Está aí a chegar o carro indiano, para todos.
Muitos sentem-se vagamente tranquilizados porque parece que alguns esforços estão a ser feitos: energias alternativas, carros elétricos, mais transportes coletivos. Mas desenganem-se, basta o carrito indiano para desiquilibrar tudo. E se alguém quiser ter um visão do Inferno, que Dante nunca poderia ter imaginado, que se atreva a fazer um curto percurso de carro, como eu já fiz, no centro de Jakarta, por exemplo.
A nossa vida é muito imperfeita e temos que a ir vivendo. O meu amigo Dudu vende carros e se isso o faz feliz, pois que venda muitos, para que possa continuar a encantar-nos com o seu pandeiro (ás vezes com o meu…) no Bossa Quinteto. E fico feliz pelos amigos que compram o carro novo dos seus sonhos. Mas, no fundo, minha gente, sinto dizê-lo, com toda a sinceridade, acho que estamos completamente lixados. POPEYE9700@YAHOO.COM

A FORMAÇÃO REACTIVA NA ORIGEM DO UNIVERSO


A FORMAÇÃO REACTIVA NA ORIGEM DO UNIVERSO




HELIODORO TARCÍSIO


Decidi escrever este artigo por três razões mas, irremediavelmente, não me recordo de uma delas. Coisas de senilidade precoce, certamente, talvez um pouco de aterosclerose. Antes isso que ter de recorrer ao Viagra ou a um grande mestre cientista espiritualista mago africano, com escritório na esquina da Casa de Utilidades. Quanto às outras, uma tem a ver com o facto de que Saramago desencarnou, eu próprio já não sou jovem e alguém tem de escrever certas coisas de uma certa maneira, embora com vírgulas. Outra é inspirada pela genialidade do Pe. Caetano Tomás e a sua explicação da vida através do conceito da formação reactiva. Quando li o artigo dele publicado em “A União” de 23 de Junho, finalmente fez-se luz no meu limitado e tacanho espírito. Seja o que for, a origem de tudo é formação reactiva. Isto não deixa de ser verdade só porque eu não o entendia bem antes. Não sei porque complicam tanto as coisas, se afinal este mundo é feito de pais e filhos, como dizia a Mafalda de Quino. Nem todos são pais mas todos são filhos de alguém. Eu a pensar que Hitler era apenas um monstro ocasional, entre tantos que não ficaram famosos e que o genocídio dos judeus europeus tinha sobretudo a ver com o racismo latente do povo alemão da época e com as peculiares condições sócio-económicas da Alemanha daquele tempo. Atrevi-me mesmo a tentar encontrar uma explicação psicológica profunda, radicada na frustração e na vingança de Hitler contra a Academia das Artes de Viena, que o achou um pintor medíocre. Sabendo nós o pendor que os Judeus têm para a cultura e para as artes, as ligações pareceram-me evidentes. Mas qual o quê! Afinal a culpa foi toda da mãe do Hitler, essa medonha Fraulein, verdadeira matriarca da família Adams, que o criou como “menino da mamã”. Provavelmente era a única pessoa que, sem lisonja, lhe gabava o ridículo bigodinho. Hitler, até nem era má pessoa, afinal ele tinha que transferir contra alguém “a negatividade que tinha contra a mãe”. Calhou aos Judeus, por tabela também aos ciganos e aos homossexuais, se fosse na atualidade, não tenho muitas dúvidas que teria calhado aos emigrantes portugueses na Alemanha, sobretudo depois daquele famoso golo do Carlos Manuel. Esse justificaria um genocídio, sem dúvida. Ainda por cima somos bastante areados (da cabeça) mas nada arianos.
Temos então que na origem de praticamente tudo na vida, está a formação reactiva. Depois de, finalmente, se ter feito luz nos meandros tenebrosos e labirínticos do meu pobre cérebro, agora não quero outra coisa. A formação reactiva é a mãe de todas as explicações. Tivesse-o entendido Saddam Hussein, em vez de insistir na mãe de todas as guerras, e não teria morrido pendurado pelo pescoço, a espernear. Nem estaria onde está agora, num canto esconso do Outro Mundo, muito amuado e mal encarado, condenado à masturbação eterna, porque nem uma das cento e onze mil virgens que por lá alternam, lhe liga pevas, uma vez que ele não chegou dentro de um saco de plástico, convenientemente despedaçado em centenas de pedaços para montar mais tarde, como um bom crente do Islão.
Penso que fiquei mais inteligente, mais calmo e mais maduro, depois de ler a argumentação do Pe. Tomás. Talvez seja por isso que estou convencido de ter descoberto a origem da vida e mesmo do próprio Universo. Nem traque cósmico nem Jardim do Éden. Nem Carl Sagan nem Rodrigo Bento. Neste momento, graças ao Pe. Tomás, acredito piamente que foi uma questão de formação reactiva do próprio Deus. Isto de ser Incriado, tem muito que se lhe diga. Imagine-se o que é estar para ali, desde sempre, presumivelmente para sempre, a boiar no meio de sabe-se lá o quê, sem poder sequer cuspir porque não há para onde… É de dar em doido, mesmo que se tenha uma cabeça genial. De que serve ser omnipresente, se não há lugar algum para ir? E ser omnipotente se não há tarefa alguma a cumprir? E de que serve ser omnisciente se não vai acontecer nada, nunca? Ná, acho que Deus andava muito recalcado e negativo com a mãe que nunca teve. Por isso mesmo arranjou uma, embora de forma algo tortuosa e deixando mal nesta história o pobre do José, que era uma paz de alma e parece que um carpinteiro muito competente. Talvez não merecesse o que lhe aconteceu. Seja como for, Deus andava a acumular ressentimentos a um ritmo inimaginável para os seres humanos. E depois de infindáveis e fastidiosos milénios perdidos na contemplação do buraco negro do seu divino umbigo, deve-lhe ter começado a germinar, poderosa, irresistível, a ideia de criar o Universo. Começando pela Luz, para Deus poder, ao menos, ver onde é que estava. Claro que, sendo omnisciente, pelo menos no caso da Humanidade, Deus sabia que aquilo ia dar fezes. Mas compreende-se, Ele tinha que ter alguém a quem mostrar a Sua obra, senão que graça teria? E de preferência alguém com livre arbítrio, para poder ter opiniões críticas, mesmo que pudesse estragar tudo e extinguir espécies, senão, onde estaria o gozo?
E foi assim que Deus, aborrecido, entediado, cheio de fermentações, criou isto tudo, o Céu, para sabermos de onde viemos e para onde iremos, o Sol, para não ficarmos aqui às escuras e termos luz de graça (a EDA é uma perversão do sistema e Deus não tem culpa alguma), o Caldo Primitivo, para as primeiras moléculas terem um local quentinho, confortável e discreto para os seus jogos sexuais e finalmente, criou também o Pe. Tomás, com a finalidade principal de nos explicar tudo isto, da formação reactiva.

Nota que não tem nada a ver: no Mundial de Futebol, no final do jogo Espanha/Portugal, confesso que senti medo, muito medo; medo que a FIFA escolhesse Cristiano Ronaldo para Homem do Jogo, caso em que já tinha decidido fazer greve de fome, o que não dá jeito nenhum no Verão; medo que Carlos Queiroz continue no comando técnico da selecção portuguesa; medo que Gilberto Madaíl não vá para a reforma, entreter os netos dele. E acima de tudo, senti medo, muito medo, um medo atroz que, de regresso a Portugal, dentro do avião, Cristiano Ronaldo, finalmente, conseguisse explodir.
Dado à estampa a 30 de Junho. POPEYE9700@YAHOO.COM

SOCIEDADE SEM PARTIDOS POLÍTICOS


SOCIEDADE SEM PARTIDOS POLÍTICOS

APENAS UMA UTOPIA ?



HELIODORO TARCÍSIO

Os partidos políticos estão muito preocupados com a abstenção eleitoral nos Açores. Que não é, aliás, assim tão diferente do resto do território nacional. Há muitas análises (políticas, claro) e algumas sugestões. Mas não vi nenhum dedo na ferida. Porque, na minha humilde opinião, o que está gasto e não mobiliza ninguém, muito menos os jovens, é o próprio sistema partidário. Mas não convém muito reconhecer isso, seria um primeiro passo para o suicídio, político, claro.
Hoje em dia é um facto irrefutável que o português comum está profundamente desinteressado da actividade política. Isso é imediatamente perceptível através do comportamento dos portugueses nas eleições. Há muito tempo que a abstenção em actos eleitorais vem crescendo de forma consistente. Responsáveis partidários e analistas políticos desdobram-se em análises, pareceres e opiniões. A verdade é que toda a gente reconhece que as coisas assim vão de mal a pior mas ninguém avança com soluções concretas para resolver o problema, muito menos os próprios partidos políticos. E não o fazem porque não lhes interessa minimamente. Mudar radicalmente a forma como se pensa e se age em política no mundo actual, implicaria, inevitavelmente, acabar com os partidos políticos.
Se formos procurar uma definição para “política”, provavelmente encontraremos algo como “arte de governar e tomar decisões de interesse colectivo ao serviço de uma comunidade, de um país ou de uma federação”. No entanto, essa é sobretudo a perspectiva idealizada da política. Na verdade, a política pode definir-se como a arte de chegar ao poder e conservá-lo a qualquer custo pelo máximo de tempo possível. Hoje, isso é apenas possível por meios democráticos, nas nações desenvolvidas.
As únicas motivações de um político deveriam resumir-se ao sincero desejo de contribuir com a sua inteligência e o seu engenho pessoal para o desenvolvimento de uma comunidade, cidade, região, país ou federação, sem prejuízo de, ao mesmo tempo, se envolver num tipo de actividade que lhe é pessoalmente gratificante – gestão de recursos humanos e materiais, desenho e implementação de projectos diversos, análise e definição de estratégias, etc – porque não há nada de errado nisso e as pessoas rendem muito mais e são mais felizes quando estão nos lugares certos e no momento exacto.
No entanto, tudo o que tenho visto, me diz que não é nada disso que se passa, salvo raríssimas excepções. Quem entra na política, fá-lo quase sempre movido exclusivamente pelas seguintes motivações e objectivos:
a) Acima de tudo, enriquecimento individual, quer directamente, por prever auferir um vencimento muito superior ao que auferia na “vida civil”, quer indirectamente, por ter a clara percepção que irá colher inúmeros benefícios, montando e gerindo pelos anos fora, redes de corrupção, tráficos de influências e contactos privilegiados nos meios políticos, financeiros, industriais, desportivos e comerciais.
b) Atracção fatal pelo poder, necessidade de exercer autoridade sobre corpos de subordinados, gosto por dar ordens e influenciar directamente a vida das pessoas.
c) Promoção social, culto da personalidade, ser conhecido na rua, aparecer na comunicação social, andar bem vestido, fazer viagens frequentes, comer muito e em bons restaurantes, conhecer gente importante, conhecer gente bonita e atraente, que só circula nos meios próximos do poder, ser respeitado e temido até.
A afirmação relativa ao enriquecimento individual, directo ou indirecto, não é uma fantasia minha. Ela é absolutamente comprovada pelos factos que vemos noticiados quase diariamente e que reportam a descoberta de escândalos, de casos de corrupção e de tráfico de influências, pondo a nu extensas redes de interesses interligados que chegam às mais altas cúpulas do poder. Na verdade, não é que os políticos de hoje sejam piores que os do passado. Não, a maior parte sempre foi má, exceptuando-se as tais honrosas excepções. A riqueza e o poder ligados à actividade política atraem as piores pessoas, como a podridão atrai as moscas. O que acontece é que funcionam muito melhor as instituições ligadas ao poder judicial, paradoxalmente criado e tornado teoricamente independente pelo poder político, uma condição indispensável nas sociedades democráticas. A capacidade de intervenção do poder judicial vem crescendo regularmente. Não nos damos conta mas a capacidade de investigação das instituições policiais é muito mais eficaz hoje em dia. Isso explica-se por várias razões: funcionários mais inteligentes, melhor formados, melhor seleccionados e mais bem preparados; a tremenda evolução tecnológica, sobretudo na área informática mas também no que concerne a outros meios tecnológicos; capacidade de investigação muito desenvolvida; reconhecimento de crimes muito especializados, como os chamados “de colarinho branco”, por exemplo e criação de departamentos específicos para os investigar; menor possibilidade de controle político das chefias; progresso social, cultural e mental geral , que permitiu às pessoas perceberem, interiorizarem e assumirem que não há intocáveis e que ninguém está acima da lei nem livre de suspeita. Este quadro evolutivo, sempre em curso, é que tem permitido toda a intensa actividade de detecção e investigação de crimes diversos envolvendo poderosos e conhecidos, a que temos assistido ultimamente. No entanto, apesar dos inúmeros processos em curso, quase não há culpados, condenações e expiação de culpas. Quase inevitavelmente, as montanhas parem ratos, os processos são arquivados, demoram tanto que os eventuais crimes prescrevem ou então, de alguma forma, os processos são abafados. Isso não invalida nada do que ficou escrito atrás. O que se passa é que a nossa jovem democracia está ainda em crescimento. As coisas já funcionam, embora de forma deficiente e o menos que falta é areia na engrenagem, que é do total interesse dos políticos.
Outro factor de evolução é tão notório que tem sido designado por “terceiro poder”. Refiro-me à comunicação social. Hoje em dia, grandes e poderosos grupos económicos estão por detrás de estações de televisão e de alguns jornais e revistas. Eles enriquecem a entreter as pessoa e a vender notícias. A seguir às tragédias, o que vende mais são os escândalos. Isso é tão importante que deu origem ao chamado “jornalismo de investigação”. Este tem o seu lado perverso e até imoral. Porque muitas vezes, no frenesim da notícia, usa fontes pouco seguras e dependentes, levantando falsos testemunhos. Todos sabemos que, por vezes são ditas mentiras nos jornais ou, pelo menos, verdades mal contadas, mas, frequentemente, basta a suspeição para manchar definitivamente uma reputação que até podia não ter mácula. No entanto, forçoso é reconhecer o importante papel da comunicação social, “farejando” e levantando as primeiras pistas sobre casos de corrupção, por exemplo, dando razão à velha máxima de que “não há fumo sem fogo”. Dentro das devidas balizas éticas e sem perder nunca o respeito e amor pela verdade, o “terceiro poder” é um importante elemento das sociedades democráticas.
Deve ser neste momento bem claro o meu pouco apreço pela actividade política e pelos políticos em geral. No entanto, o que realmente me repugna é a actividade partidária. Os partidos políticos são parasitas do sistema. Numa sociedade amadurecida e democrática, não fazem falta alguma, pelo contrário. Os partidos políticos só são importantes quando ilegalizados, em situações ditatoriais, cada vez mais raras no mundo de hoje, quando concentram os esforços, revolucionários ou pacíficos, para a instauração da democracia. Podem também desempenhar um papel importante nas democracias emergentes, quando ajudam a consolidar o ambiente de liberdade e enquadram personagens cuja intervenção é fundamental. Mas depois de amadurecida uma sociedade, a acção dos partidos políticos é sobretudo nefasta para o bem estar geral. A actividade partidária constitui uma perda de tempo e uma delapidação de recursos de todos os tipos, humanos, primeiro que tudo mas também materiais. É um sumidouro de fundos públicos. Anualmente, gastam-se fortunas para alimentar estes monstrinhos. Os partidos políticos constituem ainda o habitat por excelência de gente medíocre, incompetente, sabuja e descarada, que tenta garantir o seu futuro orbitando à volta dos que são mais espertos. O partido político é como um organismo vivo, parasitário, que importa nutrir e manter. O interesse partidário sobrepõe-se sempre ao interesse público e só acidentalmente coincidem. Quando um partido chega ao poder, fará tudo o que puder para o manter, normalmente sem quaisquer preocupações éticas. É por isso que os políticos mentem frequentemente, a tal ponto que chegam a dizer exactamente o contrário do que antes tinham dito. Os políticos dos partidos são, regra geral, indignos de confiança, porque farão qualquer promessa, não importa qual, para chegar ao poder. Uma vez lá, facilmente arranjam desculpas para faltar às suas promessas. Quando na oposição, os partidos deveriam colaborar na resolução dos problemas comuns, uma vez que perderam eleições democráticas. Quando muito, deveriam vigiar os governantes, no sentido de evitar ilegalidades e quebra de promessas. Mas as oposições fazem muito mais que isso. Para elas, nenhuma iniciativa dos governantes é boa. E consomem a maior parte do seu tempo a tentar prejudicar, empatar, sabotar e criticar as decisões e práticas dos governantes. Do mesmo modo, para os governantes, nenhuma ideia ou iniciativa das oposições é boa, mesmo que dela tenham partilhado no passado. Também não vale a pena apostar em nenhum partido oposicionista, pensado que “com eles será diferente”. Até pode ser que seja, mas por pouco tempo, porque o poder rapidamente corrompe, a teia maligna de ligações e dependências começa logo a ser construída, o principal esforço será sempre a manutenção do poder e a breve trecho o antigo partido oposicionista exibirá o mesmo autoritarismo que antes criticara, dizendo que “agora é diferente, governar é outra coisa”. Enfim, um panorama degradante que em nada contribui para o bem comum.
Os governantes e deputados, a todos os níveis, deveriam ser apenas grupos de cidadãos, eventualmente constituídos por pessoas de todos os quadrantes ideológicos que, com toda a naturalidade, discutiriam quando tivessem que discutir mas seriam absolutamente norteados pela finalidade do interesse público. Para dar um exemplo, muitas vezes a construção de mais um shopping ou de um novo aldeamento turístico, não tem o menor interesse para a população de uma determinada localidade, pelo contrário; mas acaba mesmo por acontecer porque os decisores políticos foram directamente corrompidos, porque é preciso atender aos interesses da clientela que os ajudou a ascender ao poder e a manter-se lá ou ainda porque a liderança do partido assim o decidiu. A permanência no poder deveria ser bastante reduzida porque a possibilidade de perpetuação no poder é muito perniciosa e conduz à formação de grupos promíscuos , inter dependentes, em que a satisfação de interesses privados e pessoais é o que predomina. Desse modo, far-se-ia uma selecção natural que permitiria o acesso aos cargos políticos de pessoas com uma motivação intrínseca, genuinamente interessadas em trabalhar em prol de uma comunidade por um breve período de tempo. Foi triste e degradante assistir recentemente ao espectáculo proporcionado por alguns políticos autárquicos, que estavam no poder há dezenas de anos, quando confrontados com a perspectiva de serem substituídos à força. O seu apego patético ao poder ficou então bem claro.
Os vencimentos não deveriam obedecer a nenhuma escala de referência. Deveriam ser simplesmente exactamente iguais aos que as pessoas auferiam nas suas actividades profissionais. E isso hoje é bem fácil de confirmar, a menos que haja fraude nas declarações de IRS. Se um candidato a deputado é funcionário bancário ou professor, uma situação corrente, então deveria manter o seu vencimento enquanto deputado. Mas se pelo contrário, um candidato a governante, fosse principescamente pago, por exemplo, como gestor de topo de uma grande empresa, então deveria receber também exactamente o mesmo enquanto governante. Eliminando as motivações extrínsecas interesseiras (enriquecimento material directo e indirecto, perpetuação no poder) ficaria garantido que só chegariam ao poder pessoas com motivações generosas e genuíno interesse em colaborar na persecução do bem comum. Pagar menos aos candidatos a políticos não faz sentido porque, no nosso mundo tão materialista, em que o dinheiro é tão importante, ninguém abdicaria de uma posição confortável na vida, para ir trabalhar no sector público. Mas pagar mais aos candidatos a políticos, que é exactamente o que se faz hoje, com o pretexto de assegurar a prestação dos mais competentes, também não faz sentido, porque assim está-se a assumir que é a componente financeira a grande motivação do candidato.
Resta ainda a questão dos privilégios e mordomias da classe política, chocantes num país pobre e actualmente em crise profunda. É chocante presenciar como os deputados se aumentam constantemente a si próprios, muitas vezes disfarçadamente, procurando que a opinião pública não perceba, enquanto para os trabalhadores do país são propostos aumentos ridículos e isto desde há muitos anos. É chocante ver as declarações públicas, graves e doutorais, do Governador do Banco de Portugal que, há demasiados anos vem ganhando no pobre Portugal muito mais do que o seu equivalente no país mais rico do mundo. Quando se ganha assim não é difícil falar do “despesismo e imprudência” dos portugueses, não é Dr. Victor Constâncio ?
No fundo, o que defendo é a moralização da política. Para fazer justiça à sua definição ideal, os seus protagonistas deveriam ser impulsionados acima de tudo pela vontade de servir, o seu concelho, a sua região, o seu país, por um período de tempo bastante limitado. Tenho toda a liberdade para falar assim, apesar de saber que estou a pregar no deserto. Posso gabar-me de total virgindade política..
No fundo, com o sistema que temos, toda a gente vai para a política para, de algum modo, se servir. Ninguém vai para servir. POPEYE9700@YAHOO.COM

SANJOANINAS 2006 (2)

SANJOANINAS 2006 (2)


Heliodoro Tarcísio



O Sr. Duarte Veríssimo assinou um artigo de opinião na edição de 13 de Julho do corrente do Diário Insular, intitulado “Trabalho ou divertimento ? “, em que critica veementemente um artigo da minha autoria, sobre as Sanjoaninas 2006. Devo dizer que fiquei satisfeito com a publicação desse artigo, que chegou apenas um pouco mais tarde do que eu esperava. Foi o próprio Diário Insular, através de nota editorial, a promover um debate público sobre o estado das Sanjoaninas e, naturalmente, um debate público é isso mesmo, um democrático e saudável confronto entre diferentes perspectivas, do qual poderá resultar algum ganho para todos nós e para o futuro das Festas.
Como certamente os leitores atentos compreenderão, sinto-me na necessidade de responder publicamente ao Sr. Veríssimo. Contudo, não faço questão de ter a última palavra nem de abrir aqui uma polémica que, essa sim, seria com certeza fastidiosa e inútil. Ficar-me-ei por aqui, desde que não me faltem ao respeito, bem entendido.
Apenas um pequeno reparo, o Sr. Veríssimo classifica o meu artigo de “extensivo” e “fastidioso”; queria dizer, com certeza, “extenso”, porque “extensivo” tem um significado bastante diferente. Era, com efeito, um artigo extenso, que o DI fez o obséquio de publicar em duas diferentes edições. Mas não vamos deter-nos em pormenores de qualidade semântica da nossa Língua. Quanto ao “fastidioso”, naturalmente trata-se de uma opinião pessoal; para que seja feita justiça, sugiro uma leitura comparada dos dois artigos.
Em termos gerais mantenho as minhas posições, especificamente sobre a minha adjectivação quanto às Sanjoaninas 2006, que classifiquei como fracas. Todavia, não creio estar sozinho neste campo. Não fui pesquisar mas lembro-me do próprio director do DI ter opinado em termos semelhantes em editorial. Aliás, só assim faz sentido a proposta de abrir um debate público. Por outro lado, vi outros artigos sobre as Festas deste ano e todos no sentido do meu. Além disso, ouvi inúmeras vezes expressa à minha volta a opinião de que as Sanjoninas têm vindo a baixar de qualidade, que o modelo está esgotado, e que este ano terá sido até mesmo, o pior de todos. Acrescento ainda que o feedback que recebi de algumas pessoas que me conhecem, relativamente às críticas que publiquei há dias atrás, foi no sentido da concordância e da identificação.
Por falar em identidade, tudo se torna mais claro quando o Sr. Veríssimo se identifica como membro da Comissão das Sanjoaninas 2006. O Sr. Veríssimo não gostou de ser criticado e fez a sua defesa. Nada mais natural e compreensível. É até mesmo um direito que lhe assiste. No entanto, talvez devido à sua confessada juventude, o Sr. Veríssimo poderá não ter ainda entendido que a crítica, desde que construtiva, bem intencionada e expressa com respeito e boa educação, é uma parte integrante e fundamental do processo de desenvolvimento e maturação das pessoas, instituições e sociedades.
Inteirei-me também, com muito gosto, do gargalhar do Sr. Veríssimo, visto que faz muito bem à saúde. E confesso que sou audaz mas, talvez por falta de inteligência da minha parte, tive alguma dificuldade em seguir o raciocínio, sem dúvida brilhante, do Sr. Veríssimo. Se bem entendi, só as pessoas que já fizeram parte duma Comissão das Sanjoaninas é que podem opinar sobre as Festas… Os restantes cidadãos são uma cambada de preguiçosos… Ora, se o próprio Sr. Veríssimo reconhece que estamos a falar de um reduzido número de cidadãos, sempre os mesmos, ficamos sem massa crítica, visto que todos sabemos que é extremamente difícil e pouco frequente alguém se auto-criticar.
Não vou aborrecer os leitores com considerações sobre o meu perfil hedonista, vocacionado para a fruição dos prazeres da vida; fui sincero ao confessar que nunca trabalhei nem ambiciono trabalhar nas Sanjoaninas. Contudo, abri o meu artigo com um enorme elogio às pessoas que o fazem. Muito convenientemente, o Sr. Veríssimo omitiu essa parte. Quanto a isso, só tenho uma coisa a dizer, tenho direito a expressar publicamente a minha opinião e continuarei a faze-lo. Ficamos conversados a esse nível.
Ainda no capítulo da omissão conveniente, quero chamar a atenção para o facto de que não me limitei a criticar; tentei descortinar algumas causas para os problemas e fiz algumas sugestões que terão certamente o seu valor relativo. Quem critica maliciosamente não faz sugestões mas o Sr. Veríssimo achou que também não valia a pena mencionar esses detalhes…
Além disso, em nome da verdade e porque não comecei agora a escrever nos jornais, gostaria de lembrar que em 2005, ainda nem tinham terminado as Festas e eu já tinha feito publicar um artigo no DI em que elogiava as Festas desse ano, chamando apenas a atenção para a limpeza da bacia interior do Cais da Alfândega. Não achei fracas as festas do ano passado, achei apenas que tinham menos gente a circular.
Fiquei também a saber que sou maníaco, isto é, que tenho manias, especialmente porque tenho a mania de comparar as Festas de Angra com as da Praia. Mas vou ter de acabar com isso, por intimação do Sr. Veríssimo. Ele acha simplesmente que são festas diferentes. Eu também acho.
Debrucemo-nos agora um pouco sobre o fenómeno “pimba”. Não fui ver o concerto do Emanuel do “nós Pimba” , graças a Deus, mas não duvido que o recinto tenha estado cheio… Nem duvido também que o mesmo aconteceria se viesse cá a Ruth Marlene do “pisca-pisca” ou o impagável Toy, o conceituado autor daquela coisa do “Aguenta-te com esta…” Agora, tenho formação suficiente para ser capaz de entender porque assim sucede. É uma verdade incontornável que somos uma sociedade já materialmente desenvolvida mas culturalmente ainda muito atrasada. Há imensos índices nesse sentido e por favor não me façam pôr a nu a vergonha nacional…A música que produzimos e consumimos, em termos de massas populares, é um reflexo dessa triste realidade. Curiosamente, o Sr. Veríssimo utiliza em defesa da música “pimba”, os mesmos argumentos das autoridades romanas relativamente à oferta de sangue derramado nas arenas dos circos romanos…”É disso que o meu povo gosta”…”. Posso entender que se traga gente como o Marco Paulo ou até o Tony Carreira, que, embora completamente fora do meu , acreditem, larguíssimo gosto musical, me parece serem herdeiros da tradição do cantor romântico nacional, da linha do Tony de Matos ou do António Calvário. Mas para mim há limites óbvios e continuarei a defender para os concertos das Sanjoaninas, um limite mínimo de qualidade que exclui, por completo, a música dita “pimba”.
É evidente que não vou rebater detalhadamente os argumentos do Sr. Veríssimo, isso ocuparia demasiado espaço e eu já defendi os meus pontos de vista no meu anterior artigo. Vou apenas clarificar dois ou três aspectos sobre os quais o Sr. Veríssimo lança a confusão. . Não tenho nada contra os Orishas ou o Boss Ac, antes pelo contrário. Critiquei sobretudo o alinhamento destas duas bandas para os últimos dois concertos e a escolha dos Boss Ac para o último concerto. Quanto ao Porfírio, na noite de S. João, não vejo o que possa ser “deplorável” na minha crítica e mais uma vez se confundem propositadamente as coisas. Adorei as noites de S. João animadas pelos “Coches” no passado. Conheço o Porfírio apenas de vista, já o ouvi cantar muitas vezes e mantenho a minha opinião: o Porfírio é dono de uma voz excelente, talvez mesmo excepcional mas não o considero um “músico” ou um “artista”; a sua escolha constitui uma opção óbvia e fácil, talvez causada pela falta de verbas. Se ele fosse realmente um “profissional” como insinua o Sr. Veríssimo, o mais certo, nesta altura do ano, seria estar noutra ilha ou no Continente, contratado para animar uma festa qualquer. Algo me parece estar a falhar na carreira dele… E agora quero confessar um lapso, esqueci-me realmente de referir a noite de fados, inovadora e com excelentes intérpretes e músicos, que conheço e admiro; pelo facto, apresento aqui as minhas públicas desculpas.
Não me vou alongar mais. Aguardarei ansiosamente nos próximos tempos pela publicação de perspectivas críticas diferentes das minhas, o que ainda não sucedeu até agora. Mas, por favor que sejam isentas e não venham da parte da Comissão de 2006, ou dos amigos e familiares deles. O que foi publicado no DI no dia 13 do corrente foi, inconfundivelmente, a defesa oficiosa de quem trabalhou nas Sanjoaninas deste ano. A grande confusão, provavelmente mais emocional do que maliciosa, reside no facto de se fazer parecer que eu ataquei essas pessoas, entre as quais se contarão, muito provavelmente, amigos ou pelo menos conhecidos meus. Nada mais erróneo, tenho a maior admiração por essas pessoas e deixei isso bem claro no meu artigo. A minha mensagem final é a mesma e duvido que vá mudar. Difícil ou não, é preciso recrutar outras pessoas, acabar com vícios e interesses instalados, que os há sem dúvida, seria a total ingenuidade pensar o contrário. É essencial também reflectir, definir um novo modelo e abrir as portas a novas ideias. Assobiar e olhar para o lado, não vai trazer bons resultados, de certeza. Desejo a melhor sorte para a Comissão das Sanjoaninas 2007 e que sejam umas festas de arromba. Conto estar por aí. Divertido mas bem atento.