No ARION

No ARION
No oceano, em 2001, viajando entre a Terceira e S.Vicente (Cabo Verde)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O PRÍNCIPE PINÓQUIO


O PRÍNCIPE PINÓQUIO



HELIODORO TARCÍSIO


PEC 3: austeridade, redução dos salários, subida de impostos diretos e indiretos, aumento de todas as cores em tudo o que é ruim para a vida das pessoas.
Corrijam-me se estiver errado mas a principal razão para termos aderido à CE, em 1986, não era a aproximação gradual aos padrões de vida europeus ? Definam-me “gradual” com urgência, por favor. É que estou gradualmente ficando mais velho e agora surgiu-me uma secreta esperança de parecer jovem por muito mais tempo, quiçá eternamente.
Baixar salários? Não tínhamos já baixíssimos salários, que há muitos anos praticamente não eram aumentados, de facto? Aumentar os impostos? Mas não tínhamos já uma elevadíssima carga fiscal? Resolver o problema do deficit das contas públicas? Mas a estratégia para atingir esse fim não era, precisamente, o desenvolvimento da economia portuguesa? E não é certo que as anunciadas medidas de austeridade vão, mais do que estagnar, causar a retracção da nossa pobre economia? Do que nos serve ter um país com as contas em dia mas sem a mínima possibilidade de se desenvolver e em permanente retracção?
Claro que, se olharmos para o país como uma imensa mercearia, com um rol de deve e haver, é tudo muito compreensível. A coluna do deve é muito superior à do haver. O merceeiro é um mau merceeiro. Não convém fechar a mercearia, não podemos prescindir do pão. Mas podemos sempre demitir o merceeiro. Ou chicoteá-lo em praça pública. Eu preferia chicoteá-lo. Sei lá, podíamos perguntar ao Khadafi o que diz a lei islâmica num caso destes. Mentira, má gestão e assalto. Só para termos uma ideia, um termo de comparação…Talvez o chicote não seja apropriado mas quem sabe se não conseguimos um singelo apedrejamento. Afinal, ter lixado um país inteiro, é crime muito pior do que um corriqueiro adultério.
Olho para o estado da nação e acho isto tudo muito parecido com a Inglaterra medieval no tempo do Robin Hood. Lá, enquanto o rei Ricardo Coração de Leão se entretinha a matar mouros e a saquear castelos franceses, o país vegetava na mais negra miséria e o malvado Príncipe João, com a colaboração do pérfido xerife de Nottingham, sobrecarregava o povo de impostos, levando-lhe a maior parte das colheitas. O bispo guloso levava o resto. As pessoas morriam à fome.
Hoje em dia, felizmente, a Igreja já não pode rapinar nada e está, ela própria, sujeita a viver de esmolas. Mas, na ausência de um rei decente, andámos estes anos todos a ser desgovernados pelo Príncipe Pinóquio, um fidalgo de linhagem suspeita, provavelmente ilegítimo, com um duvidoso título de nobreza, aparentado com Cyrano de Bergerac ( o do grande nariz) pela parte da mãe e criado pelo carpinteiro Gepeto. O seu xerife de Lisboa encarrega-se de levar à prática os seus desígnios, sem piedade e com mão de ferro. Vivemos com pouco dinheiro, sobrecarregados de impostos, à beira de passar fome e ainda vai piorar. Já vi isto em qualquer lado. Precisamos de um herói popular, de um Robin Hood, alguém que roube aos ricos (eles) para dar aos pobres (nós). Um José das Matas, com os seus companheiros, um João Pequeno, um Tó Esquivo, um Manel Sorrateiro e um Chico Esperto. E se tem que haver um Frei Tuck, , os nossos religiosos mais colunáveis não me parecem elegíveis. Nem o padre Melícias e muito menos o cardeal Policarpo. Lembrei-me do padre Fontes, que há 25 anos organiza o fascinante Congresso de Medicina Popular em Vilar de Perdizes. Parece-me alguém muito alternativo e New Age. E, se não souber manejar um cajado, pode sempre optar por uma toxina virulenta à base de plantas, como arma. Matas é que o fogo não deixou muitas, para eles se acoitarem e temo mesmo que haja problemas com a madeira para fazer as flechas. Além disso, terão de viver da caça e aí vão-lhes cair em cima os esbirros do xerife de Lisboa, mais até por estarem a caçar em zonas de caça associativa ou turística, já que até os baldios foram roubados ao povo. Quanto à Lady Marion, temos uma Maria em Belém mas, com um pouco de sorte e paciência, talvez seja possível encontrar uma dama mais interessante.
Acreditem-me, isto já não vai ao seu lugar com greves gerais. Talvez com porrada geral. O meu pacifismo nato, o meu instinto de sobrevivência e uma preciosa cobardia impedem-me de me alistar. Apesar de eu fazer parte do alvo a abater, a classe média portuguesa e do inimigo público n.º 1, o funcionalismo nacional. Mas se não estou de corpo com essa empresa, estarei, pelo menos, de alma. E se esse exército chegar a ter Armada, eu e o meu “Popeye” estamos às ordens.
Provavelmente, excedi-me neste artigo. Não, excedi-me mesmo, tenho a certeza. Reconheço agora o meu erro. Vou ter de me desculpar perante os meus leitores. Não devia, de modo nenhum, ter chamado “príncipe” ao Eng.º Sócrates. É lamentável. Asseguro que não voltará a acontecer.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

CESTO DA GÁVEA

CESTO DA GÁVEA (Março de 1999)

EM QUE SE CHORA BABA E RANHO E SE CONFESSA UMA PROFUNDA AVERSÃO PELA POLÍTICA, EM PARTE GENETICAMENTE HERDADE, MAS TAMBÉM PRECOCEMENTE ADQUIRIDA E TOTALMENTE ASSUMIDA (IRRA, TANTO ADVÉRBIO DE MODO !)


Há pouco tempo, o jornalista Armando Mendes, do Diário Insular, no cumprimento de uma das missões mais importantes do jornalismo dos nossos dias, a denúncia das situações menos claras e a responsabilização dos políticos pelas asneiras cometidas, escrevia sobre a Marina de Angra do Heroísmo. Nessa peça, actualizava a triste situação, tecia diversos comentários e solicitava explicações. Essas, nunca aparecem, porque, quando os riscos de exposição pública são elevados, os políticos, acompanhados pelos seus cortejos de burocratas, preferem remeter-se ao silêncio, neste caso, ao contrário do filme de culto, o silêncio dos culpados (“The Silence of the Wolves”). Ou então, porque, como todos sabemos, no actual Gove3rno Regional, há pessoas detentoras de elevados cargos, que são,, publica e confessadamente, inimigos figadais da Marina de Angra e são capazes de jogar no marasmo e arrastamento, a ver se a coisa pega por aí e tudo vai caindo no olvido. Mas, quem, não alinha nessa do esquecimento, é a Somague, que lá vai arrecadando milhares de contos (quanto será em euros…) para nada fazer. Eu, pelo menos, que, como funcionário público, considero pagar impostos elevadíssimos ( a sempre adiada reforma fiscal portuguesa é já uma anedota nacional), gostaria de ver o meu dinheirinho bem melhor empregue.
Bom, mas não nos dispersemos e falemos claro, que é assim que eu gosto. Este artigo é mesmo para falar mal dos políticos e dos seus partidos. Há muitos anos atrás, tinha eu os meus verdes 18 aninhos, cometi o erro de votar num partido politico mas bem depressa me arrependi. Que me desculpem a imodéstia mas, num sinal bem claro de evolução intelectual, que me deixou muito bem comigo próprio, não o voltei a fazer. Abri recentemente uma excepção, porque já não suportava determinados comportamentos, certos figurões e quis participar na mudança. Já me arrependi amargamente porque não houve, ao fim e ao cabo, mudança alguma. O povo, na sua infinita sabedoria, diz que os políticos são todos iguais e, sem tomar tal juízo á letra, cada vez me convenço mais que isso é verdade.
Há anos atrás, quando era estudante universitário em Ponta Delgada, vivi, de muito perto, o lançamento do estatuto de objector de consciência (outra anedota nacional). Considerava-me, então, um pacifista e assim continua a ser mas não me revia no ridículo espírito da lei da época, que considerava a autodefesa como uma infracção ao estatuto; ou seja, um individuo dever-se-ia deixar imolar, se fosse atacado, por ser contra a violência, Nem um cristão ultra ortodoxo conseguiria ignorar o seu instinto de sobrevivência.
Nessas circunstâncias, precisei de apoio jurídico, de preferência a título gracioso, e alguém me indicou o deputado socialista, Dr. Carlos Mendonça. Tivemos, efectivamente, uma conversa no Palácio da Conceição e, no seu término, o Dr. Carlos Mendonça disse-me qualquer coisa deste género: “Você tem uma maneira interessante de pensar, porque não vem para a política ?”. Bom, poderia ter começado ali uma promissora carreira política, juventude socialista, uma devoção canina à causa partidária e, no futuro, quem sabe, pelo menos, um lugarzinho de deputado, nem que fosse daqueles de cú. Foi há catorze anos, tinha eu vinte e quatro de idade, mas orgulho-me de ter respondido exactamente o que responderia agora, qualquer coisa como: “ Muito obrigado mas não, nunca, quero conservar sempre a minha independência de espírito e uma certa pureza nas ideias e nas práticas”. Já agora, que nos referimos a anedotas, quero contar como acabou esta história. Paguei 5 contos de rei (muito dinheiro há 14 anos) a um advogado para me fazer declarar objector de consciência e cumpri todos os preceitos legais vigentes. Mesmo assim, fui chamado para a Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, (onde, efectivamente, encontrei muitas bestas) e cumpri 16 meses. Mas ainda há mais, uns 8 anos depois de ter passado à disponibilidade, recebi uma amável cartinha da Presidência do Conselho de Ministros, comunicando-me que fora aceite como objector de consciência…Este país é giro, não é ?
Todo este arrazoado não é, de modo nenhum, só por causa da Marina de Angra. Sou, com efeito, um indefectível apoiante dessa obra ( e da Marina da Praia também) e apenas me separa dos meus amigos do Porto das Pipas, uma sensibilidade para as questões da Arqueologia Subaquática que naturalmente devo ter, por formação e profissão. A minha opinião sobre alguns dos protagonistas da intervenção arqueológica subaquática é outra história. O que se passa, no fundo, é que, para além da minha aversão da base à politica, sou um descrente desta ilha e das suas gentes. Com efeito, não há como um terceirense para empatar tudo, não saber defender-se, não ser capaz de reivindicar os seus direitos, lutar pelas suas legítimas aspirações, defender os seus interesses, , não ser capaz de se unir aos outros em torno de uma causa comum. Somos uns bananas, essa é a verdade, por isso os ananases nos trocam sempre as voltas e se ficam a rir. E depois, temos muita de uma pretensa intelectualidade, que tem as suas próprias opiniões em grande conta e que nunca contribui para que se faça algo de jeito.
O panorama actual da ilha Terceira, em termos de realizações materiais, é desolador e é assim porque nós deixamos: a Marina de Angra é uma vergonha, uma borbulha de adolescente, daquelas bem purulentas, na face deste Governo (no futebol, nestas situações, costuma dizer-se “pede para sair”); a Marina da Praia avança mas a passo de caracol porque o Porto de Pescas não anda; o porto comercial da Praia da Vitória é outra anedota, não serve para quase nada, de momento; a reparação da estrada corrente, entre Lajes e Santa Bárbara, tem avançado ao ritmo que se conhece; o mesmo se diz do prolongamento da via rápida; a etapa final do saneamento básico é extremamente lenta; a reposição da calçada nesse âmbito foi a vergonha que se sabe; do alargamento do Hotel de Angra, de preferência com recuperação do antigo hotel contíguo, tal como ele era (cuidado com os mamarrachos…) ninguém ouve falar; do novo hotel no Fanal, idem; a Quinta do Caracol para lá está, nem avança sequer ao passo do dito; o museu de Angra do Heroísmo, não há maneira de abrir a parte principal da sua exposição permanente; soterrámos as pegadas do Vasco da Gama (que nos diz mais que qualquer dinossauro) depois de muito barulho e de um ridículo concurso de ideias; ninguém percebe o que vai acontecer ao Gabinete da Cidade e nem sequer conseguimos construir uma porcaria de uma escada no Páteo da Alfândega; e de certeza que me esqueci de alguma coisa. Haja juízo, isto é areia demais para a minha camioneta. Quem acredita nesta ilha ? Pelo menos vai-se escrevendo, não falta tudo. Escrever, falar pelos cantos, polemizar bastante e festejar, isso ainda é connosco. Salve-se a Rainha das Sanjoaninas, que é bem bonita. Até à próxima.

CESTO DA GÁVEA

DESPORTO E SUBSÍDIOS (Novembro de 1999)


EM QUE SE EXPLICA PORQUE NÃO DEVEMOS PRATICAR DESPORTO REGULAR TODA A VIDA NEM DEIXAR DE COMER À FARTAZANA QUE É PARA NÃO DEIXAR OS MÉDICOS DO CORAÇÃO SEM EMPREGO


Não me surpreendeu a recente notícia sobre a diminuição dos apoios oficiais ao desporto amador na região. Sei como funcionam as cabecinhas dos políticos e o dinheiro não chega para as encomendas. Como se diz, está caro o dinheiro..! O pior é que, nas cabecinhas dos políticos não há qualquer confusão sobre o papel das diferentes áreas do desporto. Não há políticos ingénuos. Há-os bem e mal intencionados mas os ingénuos são atropelados sem piedade logo no início da carreira e não tem outro remédio senão tornarem-se funcionários públicos obscuros ou abrir um negócio de computadores. Os políticos conhecem muito bem a diferença entre desporto/negócio, desporto organizado e desporto/saúde e vida. Sabem exactamente que expectativa de votos se cria à volta de cada um destes tipos de desporto.
O desporto espectáculo, da alta competição, dá muitos votos. É o mundo dos profissionais do desporto, do futebol, do ciclismo, do hóquei em patins, do atletismo, sobretudo estes, em Portugal. É também o mundo dos milhões de portugueses preguiçosos e ignorantes das mais elementares regras de saúde, que se sentam nos recintos desportivos ou em casa, em frente á televisão, a papar bifanas e a arrotar cerveja, enquanto vêem os seus ídolos a evoluir nos relvados, pelados e pisos sintéticos. Se lhes perguntarem, este pessoal diz que gosta de desporto mas estão tremendamente equivocados porque, o que eles querem dizer, é que gostam de ver outras pessoas a praticar desporto, o que é completamente diferente. Este é também e cada vez mais, um mundo de dinheiro e negócios, sujeito a regras empresariais e às leis do mercado, associado muitas vezes a situações duvidosas, a interesses mafiosos e a ligações perigosas entre interesses desportivos, financeiros e políticos. Em termos históricos, é o equivalente dos jogos de circo da Roma antiga, Serve, sobretudo, para entreter a populaça e faze-la abstrair daquilo que realmente importa na vida e que é bem mais difícil de conseguir. Está também intimamente associado ao mundos dos médicos cardiologistas e das urgências dos hospitais devido aos enfartes do miocárdio e tromboses que provoca na categoria dos desportistas sentados. Os políticos adoram associar-se a este tipo de desporto, de diversas maneiras, e para aqui nunca faltam verbas, se bem que seja sempre preciso mais, porque este género de desporto é um sumidouro de dinheiro. Tenho dois paradigmas negativos para sublinhar: um, nacional, é o caso de Carlos Lopes que, sendo uma referência para muitos jovens, mal se retirou, se pôs a engordar que nem um texugo; outro, internacional, é o de Michel Platini, um futebolista de eleição, que marcou a sua época e que me lembro de ter visto há algum tempo, num jogo de convívio, a inquietar-se para aguentar a barriga dentro dos calções, apesar de ser ainda bastante novo.
Outro tipo de desporto é o amador. É levado muito a sério e envolve bastante gente. É o desporto das pequenas e médias colectividades. A grande diferença é que não é pago ou, se é, pauta-se por valores muito baixos (hoje em dia quase não há clubes de futebol, mesmo dos regionais, que não pague qualquer coisinha aos seus atletas…) e as pessoas têm os seus empregos e treinam-se antes ou depois do trabalho. Aqui ainda se vê muito o amor à camisola mas já não tanto como dantes. Ainda não é desporto na sua verdadeira essência mas, como muitas vezes está bem organizado e envolve sobretudo os jovens, pode fazer a diferença entre uma geração saudável e empenhada em qualquer coisa e uma geração de vagabundos sem préstimo para nada e sem referências na vida. Mas, mesmo assim, ainda não é este o desporto mais importante, na minha humilde opinião, porque está quase exclusivamente associado á juventude e às piores formas de espírito competitivo e os praticantes, quando atingem uma certa idade, passam a usar as sapatilhas apenas para combinar com os fatos de treino que vestem ao fim de semana, para ir comprar comida e bebida ao supermercado e passear de automóvel. Este tipo de desporto também dá votos, por isso os políticos lhe dão alguma atenção, mas muito menos do que ao desporto profissional porque envolve verbas pequenas, multiplicadas muitas vezes pelo país fora e não dá tanto nas vistas. Interessa mais aos pequenos políticos, aos presidentes de Juntas de Freguesia e, eventualmente, aos das Câmaras Municipais.
Então, que desporto interessa verdadeiramente ? Afirmo e mantenho que o verdadeiro desporto é aquele que se pratica sempre, pela vida fora, desde criança até ao fim, por gosto, como hábito e atitude, como filosofia de vida, como precaução de saúde, com alegria de viver, sem ambições nem preocupações, porque é bom e porque sim. A modalidade não interessa, pode ser golfe, vela, corrida de manutenção, passeios a pé, futebol, natação, ténis, ginástica, etc. Sobretudo em idades mais avançadas, pode ser complementado ou até substituído, com vantagem, por sexo regular, de qualidade. No entanto, não dá quaisquer votos.
Como povo pouco educado e inculto que somos, ainda nos primórdios do desenvolvimento, ninguém aqui liga nenhuma a este tipo de desporto. Pelo contrário, quando se vê alguém ao fim do dia, a correr pela rua, de calções e sapatilhas, quando já podia estar a regalar-se com o belo bife com batatas fritas e a ver a novela no aparelho da cozinha, a tendência ainda é para dizer ou pensar: “lá vai aquele cromo…”. Tenho esperança que as coisas mudem um dia e as pessoas aprendam a amar e a preservar o seu corpo, visto que nunca se sabe o que nos vai calhar na próxima reencarnação… Mas será que aquele pai que vi há dias fora da Panificação a ensinar o seu filho de 3 ou 4 anos de idade, a atirar o copo de servete para o chão, lhe saberá explicar, algum dia, o valor do desporto descontraído e não competitivo, como fonte de felicidade e saúde ? Tenho as minhas dúvidas. Quantos aos políticos, não há nada a fazer, temos mesmo de conviver com eles. Até à próxima.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

VIDA DEPOIS DA VIDA


VIDA DEPOIS DA VIDA



HELIODORO TARCÍSIO

Os falecimentos de crianças ou jovens na flor da vida são os mais difíceis de aceitar e é comum que abalem fortemente a fé religiosa das pessoas envolvidas, criando amargura e ressentimento pela aparente injustiça do Deus em que crêem. Lembram-nos também, mais do que nunca, a fragilidade da condição humana, a certeza da nossa própria morte e o mistério a ela associado.
A possibilidade de uma vida espiritual e da existência de uma alma, independente do corpo físico, são temas que sempre me apaixonaram e que estão, frequentemente, presentes em muitas das minhas leituras.
Recentemente, li a versão eletrónica do original da conhecida obra de Raymond Moody, Life After Life (Vida Depois da Vida em português). Este autor é um conceituado médico americano com licenciaturas e doutoramentos nas áreas da Filosofia, Psicologia e Medicina (Psiquiatria), nascido em 1944 e que vive atualmente em Las Vegas, EUA.
Moody não tinha qualquer relação específica com a questão da sobrevivência espiritual à morte do corpo físico, nem nenhuma crença nessa área. Contudo, no decurso da sua prática profissional, confrontou-se com testemunhos de muitas pessoas que estiveram em situação de morte clínica, devidamente comprovada e foram ressuscitadas. As histórias dessas pessoas evidenciavam muitos traços comuns. Isso levou Moody a desenvolver um estudo nessa área, a partir dos relatos de 150 pessoas, recolhidos pelo próprio, com um traço comum inquestionável: a preservação da consciência individual após uma situação de morte clínica ou “quase-morte” (near death), termo criado pelo próprio Moody em 1975.
Aparentemente, esta pesquisa goza de credibilidade científica, uma vez que, para além da apresentação dos dados objetivos, coloca várias hipóteses possíveis e equaciona a sua própria refutação.
Uma das mais importantes conclusões de Moody é que, apesar da grande disparidade das pessoas envolvidas (em termos de idade, crença religiosa, educação e nível cultural) e embora cada relato, no seu todo, fosse único, era possível identificar uma quantidade apreciável de traços comuns à maioria. Muito sumariamente, esses traços são os seguintes:
Inefabilidade: dificuldade de descrever por palavras as experiências vividas.
Ouvir: memória de ter ouvido tudo o que foi dito pelos médicos ou outras pessoas presentes no local do evento ou próximo dele, incluindo a constatação médica da morte clínica.
Paz e tranquilidade: sensação de paz infinita e absoluta tranquilidade durante a ocorrência.
Ruídos: aparentemente, é comum ouvirem-se ruídos, sempre na parte inicial da ocorrência, que vão desde zumbidos a coisas mais estridentes e até mesmo música.
Túnel: também no início do processo, é muito comum a sensação de estar a viajar ou a ser “puxado” através de um ambiente estreito e escuro.
Ver o próprio corpo: é muito comum, as pessoas verem o seu próprio corpo físico (numa cama de hospital, por exemplo), ao mesmo tempo que têm a percepção que continuam a ter alguma espécie de corpo, não muito diferente do físico mas constituído por outro tipo de matéria.
Ver outros: é comum surgirem outras pessoas, que parecem ter uma missão de acolhimento e guia, que são, quase sempre, pessoas já falecidas e conhecidas do indivíduo em questão.
Ser de luz: é comum aparecer uma figura que quase toda a gente designa por algo como “ser de luz”, que comunica (telepaticamente, sem verbalização) com a pessoa e que transmite, invariavelmente, uma sensação de amor e aceitação incondicional.
Revisão da vida: o “ser de luz”, quando aparece, procede sempre a uma revisão de toda a vida da pessoa, que é feita numa escala de tempo inimaginável para os humanos e que é muito completa e realista, não comportando, todavia, qualquer censura ou punição, apenas avaliação e aprendizagem.
Limite ou fronteira: parece haver um limite ou fronteira, percepcionado de diferentes maneiras mas que significa um ponto de não retorno, depois de transposto.
Resistência ao regresso: depois de uns primeiros instantes de incredulidade e desespero perante a morte, o traço comum é, invariavelmente, a sensação de felicidade e de não querer voltar à vida física.
Relatar a experiência: não parece ser fácil encontrar pessoas disponíveis para relatar as suas experiências de quase-morte; enquanto elas próprias as sentem como algo muito real e verdadeiro, rapidamente percebem que o mundo à sua volta, não tem a menor disponibilidade e boa-vontade para ouvir e muito menos acreditar nos seus relatos.
Efeitos na vida: muitas das pessoas entrevistadas dizem que a sua vida mudou muito, para melhor, depois do incidente, que passaram a ser muito mais calmas, mais filosóficas e que a sua visão da vida se aprofundou e alargou; evidentemente, deixaram de recear a morte, pois passaram a acreditar numa vida para além dela.
Corroboração: curiosamente, muitas destas histórias puderam ser corroboradas, pelas pessoas presentes no momento das ocorrências, nomeadamente em relação ao que a pessoa, em situação de morte clínica, diz ter visto e ouvido.
Evidentemente, Raymond Moody é agora um crente na vida depois da morte, assim como na reencarnação e desempenha um papel importante na divulgação destas ideias, ao mesmo tempo que ajuda muitas pessoas.
A minha própria intenção, ao escrever este artigo, é apenas chamar a atenção para estas temáticas, ajudar as pessoas a refletir sobre temas filosóficos e lançar uma semente de esperança. Eventualmente, ajudar alguém na sua dor pessoal. Eu próprio, nunca “morri” até agora e nunca vi fantasmas. A minha aproximação a estes temas é tanto intuitiva quanto racional e a minha perspetiva é imensamente razoável. Ou há algo depois da morte ou não há nada. Se há, ufa, que alívio. Se não há, também cessará toda a dor. Porém, acredito que haja.
Devemos olhar com respeito para esta obra e estes testemunhos. Afinal, trata-se de pessoas comuns, Josés e Fátimas, que estiveram às portas da morte e regressaram. Ouçamos o que têm para nos contar, com o espírito aberto.
O famoso médium brasileiro, Chico Xavier, conta-nos que, numa situação de intenso medo de morrer (a bordo de um avião sob turbulência severa), o seu guia espiritual, Emmanuel, lhe apareceu e lhe disse que morresse com educação, se tivesse de morrer naquele dia. Tal como Chico Xavier, também penso que deve ser difícil morrer com educação. Com certeza que morremos agoniados, doloridos, urinados, vomitados e completamente acagaçados.. Mas já acredito ser possível morrer com conhecimento. POPEYE9700@YAHOO.COM

DIA EUROPEU SEM CARROS – 2010


DIA EUROPEU SEM CARROS – 2010








HELIODORO TARCÍSIO



E lá passou, de mansinho, o 11.º Dia Europeu Sem Carros. As reacções têm sido quase sempre as mesmas. Muitos não entendem, outros não concordam e há muita gente que, mesmo concordando, acha “que não vale a pena”.
Para mim, vale sempre a pena. Trata-se de uma acção anual de sensibilização para que toda a gente, mas especialmente as crianças, possa aperceber-se da beleza e da paz de um mundo sem automóveis, pelo menos no coração das cidades.
Na verdade, o mundo, salvo raras exceções, não precisa de automóveis particulares. Eles constituem uma necessidade perfeitamente artificial, mais uma triste criação humana. Existem sobretudo para enriquecer os donos de dois dos maiores poderes do mundo, o lobby dos donos do petróleo e o lobby dos construtores e comerciantes de automóveis. Claro que vender automóveis é uma atividade perfeitamente legal e digna. Os comerciantes são nossos amigos, familiares ou…somos nós próprios. Refiro-me a um nível muito mais profundo.
A monstruosa circulação constante de automóveis, na maior parte do mundo dito “civilizado” ou “urbanizado”, é um dos mais relevantes fatores que contribuem para o aquecimento global e que estão a matar e a envenenar o nosso mundo, agora já não lentamente. É um dos traços mais marcantes do nosso modelo de civilização, caraterizado por uma pressa aflitiva e inexplicável, para ir sempre mais depressa a todo o lado. É uma espécie de vírus de loucura coletiva.
Ao nível local, as nossas pequenas ilhas podiam ser idílicas. Mas temos vindo a saturá-las de uma forma absurda com tráfego automóvel, a um ritmo sempre crescente. Lembro a Terceira da minha infância e sinto o ambiente urbano insuportavelmente poluído, barulhento, feio, agressivo… Acho que foi também por isso que vendi o meu último carro em 2006 e não voltei a adquirir outro. Fartei-me de automóveis artificialmente caros, de taxas e mais taxas, de multas, de seguros mafiosos obrigatórios, de problemas de estacionamento, de gastos de combustível, de contas de oficina, de pombos a defecar-lhes em cima, da tirania da pressão social para manter o carro lavado (o conhecido “lava-me porco”). Passaram 4 anos e continuo a fazer calmamente a minha vida, como toda a gente, embora o mundo à minha volta, por falha das autoridades e por falta de educação das pessoas, seja cada vez mais hostil para com os peões. Andar a pé hoje em dia, em Angra, nos arredores e na ilha em geral, é cada vez mais perigoso e a Polícia de Trânsito está completamente concentrada nas multas dentro dos perímetros urbanos. Entretanto, no Largo da Silveira e no Caminho do Meio de S. Carlos, por exemplo, cresce o estacionamento abusivo e selvagem em cima dos passeios, atirando os peões para a rua. Talvez nem precisasse polícia se nos passeios fossem instalados marcos e correntes, que impedissem o estacionamento fora das zonas delimitadas.
A nível global, a situação piora constantemente. Países muito populosos, como a China e a Índia, com uma fortíssima tradição de transporte não poluente, a pé, de búfalo, de bicicleta, estão agora, alegremente, a equipar os seus cidadãos com carritos. A mensagem, louca, irresponsável, maliciosa, é que todos podem ter um carrito… Está aí a chegar o carro indiano, para todos.
Muitos sentem-se vagamente tranquilizados porque parece que alguns esforços estão a ser feitos: energias alternativas, carros elétricos, mais transportes coletivos. Mas desenganem-se, basta o carrito indiano para desiquilibrar tudo. E se alguém quiser ter um visão do Inferno, que Dante nunca poderia ter imaginado, que se atreva a fazer um curto percurso de carro, como eu já fiz, no centro de Jakarta, por exemplo.
A nossa vida é muito imperfeita e temos que a ir vivendo. O meu amigo Dudu vende carros e se isso o faz feliz, pois que venda muitos, para que possa continuar a encantar-nos com o seu pandeiro (ás vezes com o meu…) no Bossa Quinteto. E fico feliz pelos amigos que compram o carro novo dos seus sonhos. Mas, no fundo, minha gente, sinto dizê-lo, com toda a sinceridade, acho que estamos completamente lixados. POPEYE9700@YAHOO.COM

A FORMAÇÃO REACTIVA NA ORIGEM DO UNIVERSO


A FORMAÇÃO REACTIVA NA ORIGEM DO UNIVERSO




HELIODORO TARCÍSIO


Decidi escrever este artigo por três razões mas, irremediavelmente, não me recordo de uma delas. Coisas de senilidade precoce, certamente, talvez um pouco de aterosclerose. Antes isso que ter de recorrer ao Viagra ou a um grande mestre cientista espiritualista mago africano, com escritório na esquina da Casa de Utilidades. Quanto às outras, uma tem a ver com o facto de que Saramago desencarnou, eu próprio já não sou jovem e alguém tem de escrever certas coisas de uma certa maneira, embora com vírgulas. Outra é inspirada pela genialidade do Pe. Caetano Tomás e a sua explicação da vida através do conceito da formação reactiva. Quando li o artigo dele publicado em “A União” de 23 de Junho, finalmente fez-se luz no meu limitado e tacanho espírito. Seja o que for, a origem de tudo é formação reactiva. Isto não deixa de ser verdade só porque eu não o entendia bem antes. Não sei porque complicam tanto as coisas, se afinal este mundo é feito de pais e filhos, como dizia a Mafalda de Quino. Nem todos são pais mas todos são filhos de alguém. Eu a pensar que Hitler era apenas um monstro ocasional, entre tantos que não ficaram famosos e que o genocídio dos judeus europeus tinha sobretudo a ver com o racismo latente do povo alemão da época e com as peculiares condições sócio-económicas da Alemanha daquele tempo. Atrevi-me mesmo a tentar encontrar uma explicação psicológica profunda, radicada na frustração e na vingança de Hitler contra a Academia das Artes de Viena, que o achou um pintor medíocre. Sabendo nós o pendor que os Judeus têm para a cultura e para as artes, as ligações pareceram-me evidentes. Mas qual o quê! Afinal a culpa foi toda da mãe do Hitler, essa medonha Fraulein, verdadeira matriarca da família Adams, que o criou como “menino da mamã”. Provavelmente era a única pessoa que, sem lisonja, lhe gabava o ridículo bigodinho. Hitler, até nem era má pessoa, afinal ele tinha que transferir contra alguém “a negatividade que tinha contra a mãe”. Calhou aos Judeus, por tabela também aos ciganos e aos homossexuais, se fosse na atualidade, não tenho muitas dúvidas que teria calhado aos emigrantes portugueses na Alemanha, sobretudo depois daquele famoso golo do Carlos Manuel. Esse justificaria um genocídio, sem dúvida. Ainda por cima somos bastante areados (da cabeça) mas nada arianos.
Temos então que na origem de praticamente tudo na vida, está a formação reactiva. Depois de, finalmente, se ter feito luz nos meandros tenebrosos e labirínticos do meu pobre cérebro, agora não quero outra coisa. A formação reactiva é a mãe de todas as explicações. Tivesse-o entendido Saddam Hussein, em vez de insistir na mãe de todas as guerras, e não teria morrido pendurado pelo pescoço, a espernear. Nem estaria onde está agora, num canto esconso do Outro Mundo, muito amuado e mal encarado, condenado à masturbação eterna, porque nem uma das cento e onze mil virgens que por lá alternam, lhe liga pevas, uma vez que ele não chegou dentro de um saco de plástico, convenientemente despedaçado em centenas de pedaços para montar mais tarde, como um bom crente do Islão.
Penso que fiquei mais inteligente, mais calmo e mais maduro, depois de ler a argumentação do Pe. Tomás. Talvez seja por isso que estou convencido de ter descoberto a origem da vida e mesmo do próprio Universo. Nem traque cósmico nem Jardim do Éden. Nem Carl Sagan nem Rodrigo Bento. Neste momento, graças ao Pe. Tomás, acredito piamente que foi uma questão de formação reactiva do próprio Deus. Isto de ser Incriado, tem muito que se lhe diga. Imagine-se o que é estar para ali, desde sempre, presumivelmente para sempre, a boiar no meio de sabe-se lá o quê, sem poder sequer cuspir porque não há para onde… É de dar em doido, mesmo que se tenha uma cabeça genial. De que serve ser omnipresente, se não há lugar algum para ir? E ser omnipotente se não há tarefa alguma a cumprir? E de que serve ser omnisciente se não vai acontecer nada, nunca? Ná, acho que Deus andava muito recalcado e negativo com a mãe que nunca teve. Por isso mesmo arranjou uma, embora de forma algo tortuosa e deixando mal nesta história o pobre do José, que era uma paz de alma e parece que um carpinteiro muito competente. Talvez não merecesse o que lhe aconteceu. Seja como for, Deus andava a acumular ressentimentos a um ritmo inimaginável para os seres humanos. E depois de infindáveis e fastidiosos milénios perdidos na contemplação do buraco negro do seu divino umbigo, deve-lhe ter começado a germinar, poderosa, irresistível, a ideia de criar o Universo. Começando pela Luz, para Deus poder, ao menos, ver onde é que estava. Claro que, sendo omnisciente, pelo menos no caso da Humanidade, Deus sabia que aquilo ia dar fezes. Mas compreende-se, Ele tinha que ter alguém a quem mostrar a Sua obra, senão que graça teria? E de preferência alguém com livre arbítrio, para poder ter opiniões críticas, mesmo que pudesse estragar tudo e extinguir espécies, senão, onde estaria o gozo?
E foi assim que Deus, aborrecido, entediado, cheio de fermentações, criou isto tudo, o Céu, para sabermos de onde viemos e para onde iremos, o Sol, para não ficarmos aqui às escuras e termos luz de graça (a EDA é uma perversão do sistema e Deus não tem culpa alguma), o Caldo Primitivo, para as primeiras moléculas terem um local quentinho, confortável e discreto para os seus jogos sexuais e finalmente, criou também o Pe. Tomás, com a finalidade principal de nos explicar tudo isto, da formação reactiva.

Nota que não tem nada a ver: no Mundial de Futebol, no final do jogo Espanha/Portugal, confesso que senti medo, muito medo; medo que a FIFA escolhesse Cristiano Ronaldo para Homem do Jogo, caso em que já tinha decidido fazer greve de fome, o que não dá jeito nenhum no Verão; medo que Carlos Queiroz continue no comando técnico da selecção portuguesa; medo que Gilberto Madaíl não vá para a reforma, entreter os netos dele. E acima de tudo, senti medo, muito medo, um medo atroz que, de regresso a Portugal, dentro do avião, Cristiano Ronaldo, finalmente, conseguisse explodir.
Dado à estampa a 30 de Junho. POPEYE9700@YAHOO.COM

SOCIEDADE SEM PARTIDOS POLÍTICOS


SOCIEDADE SEM PARTIDOS POLÍTICOS

APENAS UMA UTOPIA ?



HELIODORO TARCÍSIO

Os partidos políticos estão muito preocupados com a abstenção eleitoral nos Açores. Que não é, aliás, assim tão diferente do resto do território nacional. Há muitas análises (políticas, claro) e algumas sugestões. Mas não vi nenhum dedo na ferida. Porque, na minha humilde opinião, o que está gasto e não mobiliza ninguém, muito menos os jovens, é o próprio sistema partidário. Mas não convém muito reconhecer isso, seria um primeiro passo para o suicídio, político, claro.
Hoje em dia é um facto irrefutável que o português comum está profundamente desinteressado da actividade política. Isso é imediatamente perceptível através do comportamento dos portugueses nas eleições. Há muito tempo que a abstenção em actos eleitorais vem crescendo de forma consistente. Responsáveis partidários e analistas políticos desdobram-se em análises, pareceres e opiniões. A verdade é que toda a gente reconhece que as coisas assim vão de mal a pior mas ninguém avança com soluções concretas para resolver o problema, muito menos os próprios partidos políticos. E não o fazem porque não lhes interessa minimamente. Mudar radicalmente a forma como se pensa e se age em política no mundo actual, implicaria, inevitavelmente, acabar com os partidos políticos.
Se formos procurar uma definição para “política”, provavelmente encontraremos algo como “arte de governar e tomar decisões de interesse colectivo ao serviço de uma comunidade, de um país ou de uma federação”. No entanto, essa é sobretudo a perspectiva idealizada da política. Na verdade, a política pode definir-se como a arte de chegar ao poder e conservá-lo a qualquer custo pelo máximo de tempo possível. Hoje, isso é apenas possível por meios democráticos, nas nações desenvolvidas.
As únicas motivações de um político deveriam resumir-se ao sincero desejo de contribuir com a sua inteligência e o seu engenho pessoal para o desenvolvimento de uma comunidade, cidade, região, país ou federação, sem prejuízo de, ao mesmo tempo, se envolver num tipo de actividade que lhe é pessoalmente gratificante – gestão de recursos humanos e materiais, desenho e implementação de projectos diversos, análise e definição de estratégias, etc – porque não há nada de errado nisso e as pessoas rendem muito mais e são mais felizes quando estão nos lugares certos e no momento exacto.
No entanto, tudo o que tenho visto, me diz que não é nada disso que se passa, salvo raríssimas excepções. Quem entra na política, fá-lo quase sempre movido exclusivamente pelas seguintes motivações e objectivos:
a) Acima de tudo, enriquecimento individual, quer directamente, por prever auferir um vencimento muito superior ao que auferia na “vida civil”, quer indirectamente, por ter a clara percepção que irá colher inúmeros benefícios, montando e gerindo pelos anos fora, redes de corrupção, tráficos de influências e contactos privilegiados nos meios políticos, financeiros, industriais, desportivos e comerciais.
b) Atracção fatal pelo poder, necessidade de exercer autoridade sobre corpos de subordinados, gosto por dar ordens e influenciar directamente a vida das pessoas.
c) Promoção social, culto da personalidade, ser conhecido na rua, aparecer na comunicação social, andar bem vestido, fazer viagens frequentes, comer muito e em bons restaurantes, conhecer gente importante, conhecer gente bonita e atraente, que só circula nos meios próximos do poder, ser respeitado e temido até.
A afirmação relativa ao enriquecimento individual, directo ou indirecto, não é uma fantasia minha. Ela é absolutamente comprovada pelos factos que vemos noticiados quase diariamente e que reportam a descoberta de escândalos, de casos de corrupção e de tráfico de influências, pondo a nu extensas redes de interesses interligados que chegam às mais altas cúpulas do poder. Na verdade, não é que os políticos de hoje sejam piores que os do passado. Não, a maior parte sempre foi má, exceptuando-se as tais honrosas excepções. A riqueza e o poder ligados à actividade política atraem as piores pessoas, como a podridão atrai as moscas. O que acontece é que funcionam muito melhor as instituições ligadas ao poder judicial, paradoxalmente criado e tornado teoricamente independente pelo poder político, uma condição indispensável nas sociedades democráticas. A capacidade de intervenção do poder judicial vem crescendo regularmente. Não nos damos conta mas a capacidade de investigação das instituições policiais é muito mais eficaz hoje em dia. Isso explica-se por várias razões: funcionários mais inteligentes, melhor formados, melhor seleccionados e mais bem preparados; a tremenda evolução tecnológica, sobretudo na área informática mas também no que concerne a outros meios tecnológicos; capacidade de investigação muito desenvolvida; reconhecimento de crimes muito especializados, como os chamados “de colarinho branco”, por exemplo e criação de departamentos específicos para os investigar; menor possibilidade de controle político das chefias; progresso social, cultural e mental geral , que permitiu às pessoas perceberem, interiorizarem e assumirem que não há intocáveis e que ninguém está acima da lei nem livre de suspeita. Este quadro evolutivo, sempre em curso, é que tem permitido toda a intensa actividade de detecção e investigação de crimes diversos envolvendo poderosos e conhecidos, a que temos assistido ultimamente. No entanto, apesar dos inúmeros processos em curso, quase não há culpados, condenações e expiação de culpas. Quase inevitavelmente, as montanhas parem ratos, os processos são arquivados, demoram tanto que os eventuais crimes prescrevem ou então, de alguma forma, os processos são abafados. Isso não invalida nada do que ficou escrito atrás. O que se passa é que a nossa jovem democracia está ainda em crescimento. As coisas já funcionam, embora de forma deficiente e o menos que falta é areia na engrenagem, que é do total interesse dos políticos.
Outro factor de evolução é tão notório que tem sido designado por “terceiro poder”. Refiro-me à comunicação social. Hoje em dia, grandes e poderosos grupos económicos estão por detrás de estações de televisão e de alguns jornais e revistas. Eles enriquecem a entreter as pessoa e a vender notícias. A seguir às tragédias, o que vende mais são os escândalos. Isso é tão importante que deu origem ao chamado “jornalismo de investigação”. Este tem o seu lado perverso e até imoral. Porque muitas vezes, no frenesim da notícia, usa fontes pouco seguras e dependentes, levantando falsos testemunhos. Todos sabemos que, por vezes são ditas mentiras nos jornais ou, pelo menos, verdades mal contadas, mas, frequentemente, basta a suspeição para manchar definitivamente uma reputação que até podia não ter mácula. No entanto, forçoso é reconhecer o importante papel da comunicação social, “farejando” e levantando as primeiras pistas sobre casos de corrupção, por exemplo, dando razão à velha máxima de que “não há fumo sem fogo”. Dentro das devidas balizas éticas e sem perder nunca o respeito e amor pela verdade, o “terceiro poder” é um importante elemento das sociedades democráticas.
Deve ser neste momento bem claro o meu pouco apreço pela actividade política e pelos políticos em geral. No entanto, o que realmente me repugna é a actividade partidária. Os partidos políticos são parasitas do sistema. Numa sociedade amadurecida e democrática, não fazem falta alguma, pelo contrário. Os partidos políticos só são importantes quando ilegalizados, em situações ditatoriais, cada vez mais raras no mundo de hoje, quando concentram os esforços, revolucionários ou pacíficos, para a instauração da democracia. Podem também desempenhar um papel importante nas democracias emergentes, quando ajudam a consolidar o ambiente de liberdade e enquadram personagens cuja intervenção é fundamental. Mas depois de amadurecida uma sociedade, a acção dos partidos políticos é sobretudo nefasta para o bem estar geral. A actividade partidária constitui uma perda de tempo e uma delapidação de recursos de todos os tipos, humanos, primeiro que tudo mas também materiais. É um sumidouro de fundos públicos. Anualmente, gastam-se fortunas para alimentar estes monstrinhos. Os partidos políticos constituem ainda o habitat por excelência de gente medíocre, incompetente, sabuja e descarada, que tenta garantir o seu futuro orbitando à volta dos que são mais espertos. O partido político é como um organismo vivo, parasitário, que importa nutrir e manter. O interesse partidário sobrepõe-se sempre ao interesse público e só acidentalmente coincidem. Quando um partido chega ao poder, fará tudo o que puder para o manter, normalmente sem quaisquer preocupações éticas. É por isso que os políticos mentem frequentemente, a tal ponto que chegam a dizer exactamente o contrário do que antes tinham dito. Os políticos dos partidos são, regra geral, indignos de confiança, porque farão qualquer promessa, não importa qual, para chegar ao poder. Uma vez lá, facilmente arranjam desculpas para faltar às suas promessas. Quando na oposição, os partidos deveriam colaborar na resolução dos problemas comuns, uma vez que perderam eleições democráticas. Quando muito, deveriam vigiar os governantes, no sentido de evitar ilegalidades e quebra de promessas. Mas as oposições fazem muito mais que isso. Para elas, nenhuma iniciativa dos governantes é boa. E consomem a maior parte do seu tempo a tentar prejudicar, empatar, sabotar e criticar as decisões e práticas dos governantes. Do mesmo modo, para os governantes, nenhuma ideia ou iniciativa das oposições é boa, mesmo que dela tenham partilhado no passado. Também não vale a pena apostar em nenhum partido oposicionista, pensado que “com eles será diferente”. Até pode ser que seja, mas por pouco tempo, porque o poder rapidamente corrompe, a teia maligna de ligações e dependências começa logo a ser construída, o principal esforço será sempre a manutenção do poder e a breve trecho o antigo partido oposicionista exibirá o mesmo autoritarismo que antes criticara, dizendo que “agora é diferente, governar é outra coisa”. Enfim, um panorama degradante que em nada contribui para o bem comum.
Os governantes e deputados, a todos os níveis, deveriam ser apenas grupos de cidadãos, eventualmente constituídos por pessoas de todos os quadrantes ideológicos que, com toda a naturalidade, discutiriam quando tivessem que discutir mas seriam absolutamente norteados pela finalidade do interesse público. Para dar um exemplo, muitas vezes a construção de mais um shopping ou de um novo aldeamento turístico, não tem o menor interesse para a população de uma determinada localidade, pelo contrário; mas acaba mesmo por acontecer porque os decisores políticos foram directamente corrompidos, porque é preciso atender aos interesses da clientela que os ajudou a ascender ao poder e a manter-se lá ou ainda porque a liderança do partido assim o decidiu. A permanência no poder deveria ser bastante reduzida porque a possibilidade de perpetuação no poder é muito perniciosa e conduz à formação de grupos promíscuos , inter dependentes, em que a satisfação de interesses privados e pessoais é o que predomina. Desse modo, far-se-ia uma selecção natural que permitiria o acesso aos cargos políticos de pessoas com uma motivação intrínseca, genuinamente interessadas em trabalhar em prol de uma comunidade por um breve período de tempo. Foi triste e degradante assistir recentemente ao espectáculo proporcionado por alguns políticos autárquicos, que estavam no poder há dezenas de anos, quando confrontados com a perspectiva de serem substituídos à força. O seu apego patético ao poder ficou então bem claro.
Os vencimentos não deveriam obedecer a nenhuma escala de referência. Deveriam ser simplesmente exactamente iguais aos que as pessoas auferiam nas suas actividades profissionais. E isso hoje é bem fácil de confirmar, a menos que haja fraude nas declarações de IRS. Se um candidato a deputado é funcionário bancário ou professor, uma situação corrente, então deveria manter o seu vencimento enquanto deputado. Mas se pelo contrário, um candidato a governante, fosse principescamente pago, por exemplo, como gestor de topo de uma grande empresa, então deveria receber também exactamente o mesmo enquanto governante. Eliminando as motivações extrínsecas interesseiras (enriquecimento material directo e indirecto, perpetuação no poder) ficaria garantido que só chegariam ao poder pessoas com motivações generosas e genuíno interesse em colaborar na persecução do bem comum. Pagar menos aos candidatos a políticos não faz sentido porque, no nosso mundo tão materialista, em que o dinheiro é tão importante, ninguém abdicaria de uma posição confortável na vida, para ir trabalhar no sector público. Mas pagar mais aos candidatos a políticos, que é exactamente o que se faz hoje, com o pretexto de assegurar a prestação dos mais competentes, também não faz sentido, porque assim está-se a assumir que é a componente financeira a grande motivação do candidato.
Resta ainda a questão dos privilégios e mordomias da classe política, chocantes num país pobre e actualmente em crise profunda. É chocante presenciar como os deputados se aumentam constantemente a si próprios, muitas vezes disfarçadamente, procurando que a opinião pública não perceba, enquanto para os trabalhadores do país são propostos aumentos ridículos e isto desde há muitos anos. É chocante ver as declarações públicas, graves e doutorais, do Governador do Banco de Portugal que, há demasiados anos vem ganhando no pobre Portugal muito mais do que o seu equivalente no país mais rico do mundo. Quando se ganha assim não é difícil falar do “despesismo e imprudência” dos portugueses, não é Dr. Victor Constâncio ?
No fundo, o que defendo é a moralização da política. Para fazer justiça à sua definição ideal, os seus protagonistas deveriam ser impulsionados acima de tudo pela vontade de servir, o seu concelho, a sua região, o seu país, por um período de tempo bastante limitado. Tenho toda a liberdade para falar assim, apesar de saber que estou a pregar no deserto. Posso gabar-me de total virgindade política..
No fundo, com o sistema que temos, toda a gente vai para a política para, de algum modo, se servir. Ninguém vai para servir. POPEYE9700@YAHOO.COM