No ARION

No ARION
No oceano, em 2001, viajando entre a Terceira e S.Vicente (Cabo Verde)

terça-feira, 24 de maio de 2011

NADA É PARA SEMPRE

NADA É PARA SEMPRE


Heliodoro Tarcísio



Recentemente, na edição do DI de 18 de Fevereiro, um prezado articulista escreveu sobre temas que me são caros, amor, casamento e divórcio. Para estar à mesma altura, ponderei seriamente identificar-me no final deste artigo como formador de Náutica e Navegação. Não tem nada a ver ? E “professor de Língua Portuguesa” tem ? Ainda se fosse jurista, político profissional, padre, pastor ou psicanalista… Ah, já sei, deve ser porque, na sua qualidade de professor julga lidar amiúde com as consequências das pobres famílias destroçadas pelos malefícios do divórcio, esse tenebroso inimigo da sociedade, só comparável ao vício da droga, à criminalidade, ao relativismo e claro, ao casamento homossexual.
Seja como for, o artigo em questão era até uma peça de joalharia, não exatamente uma jóia preciosa mas também não tinha nada de quinquilharia. Romântico, enternecedor, com um toque literário até, poderia ter-me humedecido os olhos se não veiculasse perspetivas com as quais estou em completo desacordo.
Já antes me referi a este assunto nas páginas deste jornal. Mas como as pessoas se casam e, felizmente, se divorciam, todos os dias, este é um tema sempre atual. Que o caríssimo articulista principia por tratar com jurídica seriedade, apontando um aparente paradoxo legal: não é possível, atualmente, perante a lei, casar para sempre. E eu acrescento, ufa, ainda bem! Minha rica lei, que em tantas ocasiões nos castigas e nos vergas a espinha, por vezes também tens uns rasgos de inteligência, compaixão e humanidade. Nem toda a legislação há-de ser sobre mais impostos e taxas, menos regalias e apoios sociais e cortes nos ordenados. De vez em quando, algum legislador desalinhado há-de se preocupar com a felicidade das pessoas.
Bom, por muito riquinho que seja, o texto publicado só aparentemente é inteligente. À questão colocada, sobre a forma de efabulação, relacionada com a possibilidade de escolher entre duas formas de casamento, a atual, que pressupõe um fácil divórcio e uma outra, que só não é fantasiosa porque é quase decalcada de um triste passado recente e implica um compromisso inquebrantável para toda a vida, respondo sem hesitação: eu próprio escolheria a segunda hipótese. Pois quem é que não casa cheio de boa vontade e de ilusões, de peito aberto e sem medo ? O pior é o que vem depois. É que, para saber bem o que é casar , é preciso dar esse passo e ficar por lá uns tempos. “O amor é louco”, escreve o autor. Talvez seja por isso, que tantos protagonistas de casamentos infelizes saíam dos consultórios dos psiquiatras encharcados em tranquilizantes e anti-depressivos, quando não iam mesmo parar a um hospício… Não é que agora isto não aconteça. Não há nada como um mau casamento para avariar os fusíveis de uma pessoa. É pior ainda que a humidade. Só que antes, a solução óbvia, o divórcio, era um bico de obra. E agora, é fácil e barato. Que não, clamam alguns, nunca devia ter deixado de ser difícil e demorado. Idealmente, devia ser mesmo impossível. Só morrendo.
Fico cansado de tentar explicar as coisas a esta gente. O mal não está no divórcio. Este é , sobretudo, uma solução. Normalmente, é a única que realmente funciona. Quem condena o divórcio, ignora por completo, o quanto é preciso ser inteligente, emocionalmente maduro, compreensivo, tolerante e compassivo, para reconhecer e aceitar, pacificamente, os sinais do fim. O quanto é preciso amar a outra pessoa para ser capaz do supremo gesto de amor: vai à tua vida e sê feliz com alguém diferente de mim. Nada é para sempre na vida. Nem sequer o Sol. Porque deveria sê-lo o casamento ?
Ser contra o divórcio é também fazer de conta que não se sabe que a maior parte dos divorciados constitui outras famílias que, muitas vezes, se relacionam com a primeira, devido aos filhos, gerando uma enorme e feliz teia de relações sociais. Porque é que essas novas famílias não hão-de ser felizes e hão-de ser piores que as outras ? O divórcio é a causa de problemas sociais graves ? Perdoem-me mas isso é mentira. As causas dos problemas sociais e familiares são bem mais complexas do que isso. O divórcio é uma simples consequência. Acredito que se relacionem sobretudo com a loucura da Humanidade, do mundo que construímos, sem referências éticas, materialista, egoísta, poluente, corrupto, assente na trilogia do dinheiro, do poder e do sexo. Mas, como é bem mais fácil arranjar um bode expiatório…salta o desgraçado do divórcio.
Como antigo professor (que, no fundo, nunca deixamos de ser), discordo em absoluto que um professor “(…) espera, mais tarde ou mais cedo, problemas num aluno cujos pais se divorciaram”. Que afirmação mais infeliz e redutora. Ainda se tivesse escrito que é de esperar problemas em alunos cujos pais já não se amam…
Não me posso alongar muito mais, estou bem avisado pelo DI quanto ao tamanho dos meus artigos. Mas, nesta tribuna, não posso deixar de oferecer o meu testemunho pessoal nesta matéria. Duplamente divorciado, casado pela terceira vez, tenho três filhos e um quarto a caminho. Se eu fosse sueco, já tinha a vida feita. Com sou português, à medida que vou gerando filhos, vão-me diminuindo o ordenado. Quanto aos meus filhos, a crer no nosso articulista, eles deviam andar cheios de “problemas”. Pois bem, foram sempre crianças estáveis e felizes, absolutamente normais, tirando as normais crises de adolescência. Nunca consumiram drogas (não me refiro à droga oficial do regime – o álcool), a mais velha já se licenciou e o outro a seguir está no 1.º ano da faculdade. Estão ótimos. Quanto á terceira, filha de outra mãe, é uma doce menina de 12 anos e espalha encanto e felicidade por onde passa. São filhos de pais divorciados. Mas talvez porque aconteceram divórcios muito cedo, eles não assistiram à degradação das relações familiares, não participaram de cenas de agressão, física e psicológica, violência, ódio e desamor. Entre nós, imperou sempre o respeito e nunca deixou de haver convivência regular e amor de pais e filhos. Por isso, eles nunca tiveram “problemas”. Cresceram felizes. Não são frutos apodrecidos. Apesar das vicissitudes da vida, a gente ama-se e vamos continuar assim. Como se vê, até radica tudo no amor, o único poder que deveria reger o mundo. Mas é o amor verdadeiro, espontâneo, generoso, benévolo e saudável, não é o amor obrigatório, imposto pelas leis , sujeito à sanção familiar e exposto à vigilância atenta das vizinhas da nossa rua. Não é, enfim, o amor contra natura.
Uma última observação: o aço, mesmo inoxidável, está a ficar fora de moda, como símbolo de resistência. Temos de nos manter atualizados. Aconselho a fibra de carbono. POPEYE9700@YAHOO.COM

MUNDO NOVO

MUNDO NOVO



HELIODORO TARCÍSIO


Os últimos tempos têm sido marcados por grandes convulsões. Política e sócio económica em Portugal, sísmica e nuclear no Japão. Apesar de tudo, ainda saímos favorecidos. Não me desagradam de todo os tempos das grandes convulsões. Não é que tenha qualquer prazer no sofrimento das pessoas, longe disso. Mas a Humanidade precisa desses fenómenos para aprender e evoluir. Foram necessárias as terríveis hecatombes das duas Guerras Mundiais, para as pessoas perceberem até que ponto podiam chegar os resultados de um conflito generalizados com as armas sofisticadas que a Humanidade já possuía. Ninguém acha possível que algo de semelhante possa ocorrer no contexto atual, em que se tenta sempre privilegiar a via do diálogo. Claro que não estamos livres de alguma loucura de regimes radicais, como os fanáticos do Irão ou os doidinhos da Coreia do Norte. A crise nuclear do Japão que, no momento, em que escrevo, está muito longe de encerrada, já está a ter o efeito positivo de fazer repensar o recurso a um tipo de energia extremamente perigosa e instável, que tem, inclusivamente, poder para destruir o mundo, de diversas formas.
Pensando em Portugal, a minha maior angústia tem a ver com a falta de alternativas. As crises políticas e sísmicas até podem ter um certo paralelismo. Derrubar tudo, para construir de novo. Mas construir com o quê ? Com a mesma tijoleira e argamassa? Irá tudo ao chão de novo, é uma questão de tempo. Com todo o distanciamento partidário que quem faz o favor de me ler, sabe que tenho, afirmo que não há, em rigor, qualquer diferença entre socialistas e social-democratas. Mais preocupação (relativa, muito relativa, como temos visto) com os apoios sociais para uns, mais liberalismo económico para outros. E cessam aí as diferenças, a fauna que por lá pulula é, essencialmente, da mesma família animal. Têm outro rótulo mas são os mesmo políticos profissionais, sedentos de poder e benesses, com o seu imenso cortejo de amigos e oportunistas, de lambe-botas e sabujos, de carreiristas de toda a espécie, de empresários sem escrúpulos e de banqueiros, que até podem ser do Opus Dei mas que acabam fazendo as mesmas patifarias que os outros. Passos Coelho passa por ser, no momento, o campeão das hostes dos deserdados da sorte e dos insatisfeitos. Ainda por cima exibe aquele ar de betinho bem comportado, de cristão liberal e genro ideal. Mas, infelizmente, não tenho muitas dúvidas. Não acredito que possa ser O POLÍTICO, realmente corajoso e de elevado sentido ético de que o país precisava agora. Alguém que arrasasse o sistema, a que já me referi nestas páginas, que domina e apodrece o país, montado ao longo dos anos, essencialmente pelos políticos social-democratas (Cavaco Silva incluído, sem dúvida) e socialistas. Nenhum lobo vai trair a sua alcateia. Nem os lobos mais velhos deixariam.
Do que realmente precisávamos era de um mundo novo. É a minha utopia privada mas vou insistir nela enquanto for vivo. Uma pessoa nunca perde o direito de sonhar. No meu mundo, há democracia, sem dúvida, mas não há políticos profissionais nem o poder está entregue a partidos políticos. Sei que chego ao cúmulo do lirismo quando digo que nesse mundo, o maior poder seria o do amor e não do dinheiro. O amor genuíno e universal, não o que é formalizado e ditado pelas religiões instituídas. Como a religião católica “meus filhos, amem-se uns aos outros mas, atenção, é homens com mulheres, entendido ???”.
No meu mundo, o transporte seria basicamente o coletivo, à base de energias limpas. Se não somos capazes de as criar, então ficamos quietos e esperamos até ficarmos mais inteligentes. Deixava o petróleo onde está. Tenho a certeza que a natureza não o criou para a gente o transformar em plástico e espalhá-lo por todo o mundo. Chega de esburacar a terra. Nós estamos, nitidamente, no mau caminho. Só inventamos coisas que estragam, que poluem,, que já ameaçam, até, destruir o nosso planeta e a sua luxuriante vida, que levou tantos milhões de anos a evoluir. Que porcaria de civilização que somos…
Precisamos realmente de um mundo novo. Um dia destes farei uma proposta a sério e garanto que será muito diferente deste e do de Maranatha também. Talvez tenhamos que arrasar o mundo antigo. Talvez seja necessário um grande sismo e uma data de tsunamis. Os próximos tempos não serão de imobilismo e pasmaceira. Vai haver mudanças. Isso já é bom. E mesmo, sem sismo, tenho a grata impressão que vamos , pelo menos, ter um pequeno e muito cirúrgico tsunami, que vai levar de arrasto, Sócrates Pinóquio e o seu insuportável e trombudo Ministro das Finanças. Ah, lamento ter desiludido quem, no principio deste artigo, pensou que ia ler uma analise política à maneira. Não sou desse filme. Sou de um filme de autor, daqueles obscuros, pouco conhecidos e não comerciais. POPEYE9700@YAHOO.COM

CRÓNICA DISTO E DAQUILO E DE ETECETRA E TAL

CRÓNICA DISTO E DAQUILO E DE ETECETRA E TAL






HELIODORO TARCÍSIO


Estou de volta. Lamento mas é a pura verdade. Para consolo de alguns e desprazer de outros. Paciência, nem Jesus Cristo agradou a todos e eu sou apenas um pobre mas feliz pecador. Antes a dentada de um cão rafeiro que a indiferença de um gato persa. Hoje, vim ver se meto uma pincelada de cor, desvairada e inconsequente, neste cinzento e invernoso panorama local. Afinal, regresso de uma temporada nos trópicos, de onde trouxe uma perna direita nova, livre de um inútil metro de safena mais dilatada que um pipeline de petróleo e de um quilograma (literal) de veias varicosas. A perna esquerda está igualmente queixosa mas ainda não chegou a vez dela.
Aqui pela terrinha, tudo como dantes, tirando os novíssimos bancos metálicos da Rua do Desespero, comprados num saldo de sobras da guerra no Afeganistão. Aquela rua já era uma anedota mas agora ganhou estatuto bastante para entrar nos Malucos do Riso. Pobre Teatro Angrense, merecias muito melhor…
De resto, a habitual esterqueira da baixa política local, os comentários sobre a crise, os conselhos para poupar, desde voltar a plantar couves no quintal até retirar os velhos dos lares, para aproveitar a pensão deles. E ainda, essa pungente questão da Humanidade, introduzir ou não modificações na Praça Velha, discutida nos telejornais de todo o mundo, a par do desemprego norte-americano, da crise nos mercados financeiros e da teimosia piramidal de Mubarak. Mas não vou meter-me nessa história. Gente muito mais fina, importante e inteligente já botou faladura sobre o assunto.
Por falar em Praça Velha, passei pela dita como sempre, no regresso ao trabalho, na segunda-feira de manhã. Fiquei preocupado com o que vi. Ou melhor, com o que não vi. Não estava lá o Joe Karaté, sentado no seu banquinho. Pensei para com o meu ziper, “tralalá” lhe acontecido alguma coisa, no meio de tanta desgraça... Sei lá, doença súbita, rapto por OVNI, desaparecimento simples, até podia ser que algum “amigo” do Facebook, mais velho, o tivesse levado a passear a Nova Iorque… Mas na hora de almoço, suspirei de alívio. Tudo normal, tudo como dantes. Discutia-se animadamente a jornada futebolística do fim de semana fora do Café Aliança e num banquinho da Praça Velha, lá estava o bom, o velho, o fiel Joe Karaté, sentadinho, mais agasalhado do que o vira em Outubro, antes de me ausentar, de cabeça enfiada nas mãos, como sempre, em viagem pelo planeta que é só dele e onde talvez seja feliz.
Confesso que passei o dia num estado de euforia. Cumprimentei toda a gente, desejei um Feliz Ano Novo e falei pelos cotovelos. Apesar de amar o Brasil e de lá ter deixado a minha esposa e na barriga dela, a nossa bebé, Julinha, sentia-me feliz por estar de volta à paz e sossego da santa terrinha, depois de três meses numa cidade que podia ser maravilhosa, S. Salvador da Bahia mas que está entulhada de lixo, entupida de plásticos, invadida por hordas de mendigos, infestada de criminosos e “prefeitamente” lixada por um prefeito incompetente e pateticamente agarrado ao poder, à imagem de tantos dos nossos políticos, admiradores de Hugo Chavez.
O clímax do meu dia foi quando passei na rua da Sé e quedei-me a observar um vídeo das marradas de 2010. Na Fonte de S. Sebastião, dois catitas levavam impiedosas cornadas no rabo, entalados na entrada de uma tasca. A cena era hilariante, embora corriqueira. Mas eis que o bicho segue adiante e se vêem os rostos das pobres vítimas. Uma delas era o Dr. Adolfo Lima, antigo secretário regional da Agricultura e Pescas, o tal que era contra a proibição da caça a baleias e golfinhos. Confesso que vibrei. Vou ver de novo, várias vezes. Vou comprar. Vou divulgar pelo mundo. Para mim, que acredito na reincarnação, naquele toiro está a alma de um antigo golfinho que agora voltou, equipado com chifres, para dar o devido castigo à criatura e trazer alguma justiça ao mundo. Bendito animal, bicho valente e sábio, meu rico cornudo, que possas viver por muitos anos ainda, feliz, cobrindo vacas boas todos os dias nessas pastagens do mato, com muita erva verdinha e água fresca de sobra.
Ai, eu queria tanto ser capaz de escrever sobre questões sérias, política, economia, coisas assim. Mas não é a minha sina nem a minha arte. Para compensar, vou contradizer-me ligeiramente e afinal vou referir-me ao problema da Praça Velha, que é uma coisa muito, muito séria. Meus caros, seja lá o que for que resolvam fazer na Praça Velha, perguntem primeiro! Não façam burrices, como no caso das marinas, onde não perguntaram nada aos pescadores e marinheiros locais. Se querem mudar os bancos da Praça Velha, perguntem a quem os usa. Falem com o Joe karaté. POPEYE9700@YAHOO.COM

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O PRÍNCIPE PINÓQUIO


O PRÍNCIPE PINÓQUIO



HELIODORO TARCÍSIO


PEC 3: austeridade, redução dos salários, subida de impostos diretos e indiretos, aumento de todas as cores em tudo o que é ruim para a vida das pessoas.
Corrijam-me se estiver errado mas a principal razão para termos aderido à CE, em 1986, não era a aproximação gradual aos padrões de vida europeus ? Definam-me “gradual” com urgência, por favor. É que estou gradualmente ficando mais velho e agora surgiu-me uma secreta esperança de parecer jovem por muito mais tempo, quiçá eternamente.
Baixar salários? Não tínhamos já baixíssimos salários, que há muitos anos praticamente não eram aumentados, de facto? Aumentar os impostos? Mas não tínhamos já uma elevadíssima carga fiscal? Resolver o problema do deficit das contas públicas? Mas a estratégia para atingir esse fim não era, precisamente, o desenvolvimento da economia portuguesa? E não é certo que as anunciadas medidas de austeridade vão, mais do que estagnar, causar a retracção da nossa pobre economia? Do que nos serve ter um país com as contas em dia mas sem a mínima possibilidade de se desenvolver e em permanente retracção?
Claro que, se olharmos para o país como uma imensa mercearia, com um rol de deve e haver, é tudo muito compreensível. A coluna do deve é muito superior à do haver. O merceeiro é um mau merceeiro. Não convém fechar a mercearia, não podemos prescindir do pão. Mas podemos sempre demitir o merceeiro. Ou chicoteá-lo em praça pública. Eu preferia chicoteá-lo. Sei lá, podíamos perguntar ao Khadafi o que diz a lei islâmica num caso destes. Mentira, má gestão e assalto. Só para termos uma ideia, um termo de comparação…Talvez o chicote não seja apropriado mas quem sabe se não conseguimos um singelo apedrejamento. Afinal, ter lixado um país inteiro, é crime muito pior do que um corriqueiro adultério.
Olho para o estado da nação e acho isto tudo muito parecido com a Inglaterra medieval no tempo do Robin Hood. Lá, enquanto o rei Ricardo Coração de Leão se entretinha a matar mouros e a saquear castelos franceses, o país vegetava na mais negra miséria e o malvado Príncipe João, com a colaboração do pérfido xerife de Nottingham, sobrecarregava o povo de impostos, levando-lhe a maior parte das colheitas. O bispo guloso levava o resto. As pessoas morriam à fome.
Hoje em dia, felizmente, a Igreja já não pode rapinar nada e está, ela própria, sujeita a viver de esmolas. Mas, na ausência de um rei decente, andámos estes anos todos a ser desgovernados pelo Príncipe Pinóquio, um fidalgo de linhagem suspeita, provavelmente ilegítimo, com um duvidoso título de nobreza, aparentado com Cyrano de Bergerac ( o do grande nariz) pela parte da mãe e criado pelo carpinteiro Gepeto. O seu xerife de Lisboa encarrega-se de levar à prática os seus desígnios, sem piedade e com mão de ferro. Vivemos com pouco dinheiro, sobrecarregados de impostos, à beira de passar fome e ainda vai piorar. Já vi isto em qualquer lado. Precisamos de um herói popular, de um Robin Hood, alguém que roube aos ricos (eles) para dar aos pobres (nós). Um José das Matas, com os seus companheiros, um João Pequeno, um Tó Esquivo, um Manel Sorrateiro e um Chico Esperto. E se tem que haver um Frei Tuck, , os nossos religiosos mais colunáveis não me parecem elegíveis. Nem o padre Melícias e muito menos o cardeal Policarpo. Lembrei-me do padre Fontes, que há 25 anos organiza o fascinante Congresso de Medicina Popular em Vilar de Perdizes. Parece-me alguém muito alternativo e New Age. E, se não souber manejar um cajado, pode sempre optar por uma toxina virulenta à base de plantas, como arma. Matas é que o fogo não deixou muitas, para eles se acoitarem e temo mesmo que haja problemas com a madeira para fazer as flechas. Além disso, terão de viver da caça e aí vão-lhes cair em cima os esbirros do xerife de Lisboa, mais até por estarem a caçar em zonas de caça associativa ou turística, já que até os baldios foram roubados ao povo. Quanto à Lady Marion, temos uma Maria em Belém mas, com um pouco de sorte e paciência, talvez seja possível encontrar uma dama mais interessante.
Acreditem-me, isto já não vai ao seu lugar com greves gerais. Talvez com porrada geral. O meu pacifismo nato, o meu instinto de sobrevivência e uma preciosa cobardia impedem-me de me alistar. Apesar de eu fazer parte do alvo a abater, a classe média portuguesa e do inimigo público n.º 1, o funcionalismo nacional. Mas se não estou de corpo com essa empresa, estarei, pelo menos, de alma. E se esse exército chegar a ter Armada, eu e o meu “Popeye” estamos às ordens.
Provavelmente, excedi-me neste artigo. Não, excedi-me mesmo, tenho a certeza. Reconheço agora o meu erro. Vou ter de me desculpar perante os meus leitores. Não devia, de modo nenhum, ter chamado “príncipe” ao Eng.º Sócrates. É lamentável. Asseguro que não voltará a acontecer.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

CESTO DA GÁVEA

CESTO DA GÁVEA (Março de 1999)

EM QUE SE CHORA BABA E RANHO E SE CONFESSA UMA PROFUNDA AVERSÃO PELA POLÍTICA, EM PARTE GENETICAMENTE HERDADE, MAS TAMBÉM PRECOCEMENTE ADQUIRIDA E TOTALMENTE ASSUMIDA (IRRA, TANTO ADVÉRBIO DE MODO !)


Há pouco tempo, o jornalista Armando Mendes, do Diário Insular, no cumprimento de uma das missões mais importantes do jornalismo dos nossos dias, a denúncia das situações menos claras e a responsabilização dos políticos pelas asneiras cometidas, escrevia sobre a Marina de Angra do Heroísmo. Nessa peça, actualizava a triste situação, tecia diversos comentários e solicitava explicações. Essas, nunca aparecem, porque, quando os riscos de exposição pública são elevados, os políticos, acompanhados pelos seus cortejos de burocratas, preferem remeter-se ao silêncio, neste caso, ao contrário do filme de culto, o silêncio dos culpados (“The Silence of the Wolves”). Ou então, porque, como todos sabemos, no actual Gove3rno Regional, há pessoas detentoras de elevados cargos, que são,, publica e confessadamente, inimigos figadais da Marina de Angra e são capazes de jogar no marasmo e arrastamento, a ver se a coisa pega por aí e tudo vai caindo no olvido. Mas, quem, não alinha nessa do esquecimento, é a Somague, que lá vai arrecadando milhares de contos (quanto será em euros…) para nada fazer. Eu, pelo menos, que, como funcionário público, considero pagar impostos elevadíssimos ( a sempre adiada reforma fiscal portuguesa é já uma anedota nacional), gostaria de ver o meu dinheirinho bem melhor empregue.
Bom, mas não nos dispersemos e falemos claro, que é assim que eu gosto. Este artigo é mesmo para falar mal dos políticos e dos seus partidos. Há muitos anos atrás, tinha eu os meus verdes 18 aninhos, cometi o erro de votar num partido politico mas bem depressa me arrependi. Que me desculpem a imodéstia mas, num sinal bem claro de evolução intelectual, que me deixou muito bem comigo próprio, não o voltei a fazer. Abri recentemente uma excepção, porque já não suportava determinados comportamentos, certos figurões e quis participar na mudança. Já me arrependi amargamente porque não houve, ao fim e ao cabo, mudança alguma. O povo, na sua infinita sabedoria, diz que os políticos são todos iguais e, sem tomar tal juízo á letra, cada vez me convenço mais que isso é verdade.
Há anos atrás, quando era estudante universitário em Ponta Delgada, vivi, de muito perto, o lançamento do estatuto de objector de consciência (outra anedota nacional). Considerava-me, então, um pacifista e assim continua a ser mas não me revia no ridículo espírito da lei da época, que considerava a autodefesa como uma infracção ao estatuto; ou seja, um individuo dever-se-ia deixar imolar, se fosse atacado, por ser contra a violência, Nem um cristão ultra ortodoxo conseguiria ignorar o seu instinto de sobrevivência.
Nessas circunstâncias, precisei de apoio jurídico, de preferência a título gracioso, e alguém me indicou o deputado socialista, Dr. Carlos Mendonça. Tivemos, efectivamente, uma conversa no Palácio da Conceição e, no seu término, o Dr. Carlos Mendonça disse-me qualquer coisa deste género: “Você tem uma maneira interessante de pensar, porque não vem para a política ?”. Bom, poderia ter começado ali uma promissora carreira política, juventude socialista, uma devoção canina à causa partidária e, no futuro, quem sabe, pelo menos, um lugarzinho de deputado, nem que fosse daqueles de cú. Foi há catorze anos, tinha eu vinte e quatro de idade, mas orgulho-me de ter respondido exactamente o que responderia agora, qualquer coisa como: “ Muito obrigado mas não, nunca, quero conservar sempre a minha independência de espírito e uma certa pureza nas ideias e nas práticas”. Já agora, que nos referimos a anedotas, quero contar como acabou esta história. Paguei 5 contos de rei (muito dinheiro há 14 anos) a um advogado para me fazer declarar objector de consciência e cumpri todos os preceitos legais vigentes. Mesmo assim, fui chamado para a Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, (onde, efectivamente, encontrei muitas bestas) e cumpri 16 meses. Mas ainda há mais, uns 8 anos depois de ter passado à disponibilidade, recebi uma amável cartinha da Presidência do Conselho de Ministros, comunicando-me que fora aceite como objector de consciência…Este país é giro, não é ?
Todo este arrazoado não é, de modo nenhum, só por causa da Marina de Angra. Sou, com efeito, um indefectível apoiante dessa obra ( e da Marina da Praia também) e apenas me separa dos meus amigos do Porto das Pipas, uma sensibilidade para as questões da Arqueologia Subaquática que naturalmente devo ter, por formação e profissão. A minha opinião sobre alguns dos protagonistas da intervenção arqueológica subaquática é outra história. O que se passa, no fundo, é que, para além da minha aversão da base à politica, sou um descrente desta ilha e das suas gentes. Com efeito, não há como um terceirense para empatar tudo, não saber defender-se, não ser capaz de reivindicar os seus direitos, lutar pelas suas legítimas aspirações, defender os seus interesses, , não ser capaz de se unir aos outros em torno de uma causa comum. Somos uns bananas, essa é a verdade, por isso os ananases nos trocam sempre as voltas e se ficam a rir. E depois, temos muita de uma pretensa intelectualidade, que tem as suas próprias opiniões em grande conta e que nunca contribui para que se faça algo de jeito.
O panorama actual da ilha Terceira, em termos de realizações materiais, é desolador e é assim porque nós deixamos: a Marina de Angra é uma vergonha, uma borbulha de adolescente, daquelas bem purulentas, na face deste Governo (no futebol, nestas situações, costuma dizer-se “pede para sair”); a Marina da Praia avança mas a passo de caracol porque o Porto de Pescas não anda; o porto comercial da Praia da Vitória é outra anedota, não serve para quase nada, de momento; a reparação da estrada corrente, entre Lajes e Santa Bárbara, tem avançado ao ritmo que se conhece; o mesmo se diz do prolongamento da via rápida; a etapa final do saneamento básico é extremamente lenta; a reposição da calçada nesse âmbito foi a vergonha que se sabe; do alargamento do Hotel de Angra, de preferência com recuperação do antigo hotel contíguo, tal como ele era (cuidado com os mamarrachos…) ninguém ouve falar; do novo hotel no Fanal, idem; a Quinta do Caracol para lá está, nem avança sequer ao passo do dito; o museu de Angra do Heroísmo, não há maneira de abrir a parte principal da sua exposição permanente; soterrámos as pegadas do Vasco da Gama (que nos diz mais que qualquer dinossauro) depois de muito barulho e de um ridículo concurso de ideias; ninguém percebe o que vai acontecer ao Gabinete da Cidade e nem sequer conseguimos construir uma porcaria de uma escada no Páteo da Alfândega; e de certeza que me esqueci de alguma coisa. Haja juízo, isto é areia demais para a minha camioneta. Quem acredita nesta ilha ? Pelo menos vai-se escrevendo, não falta tudo. Escrever, falar pelos cantos, polemizar bastante e festejar, isso ainda é connosco. Salve-se a Rainha das Sanjoaninas, que é bem bonita. Até à próxima.

CESTO DA GÁVEA

DESPORTO E SUBSÍDIOS (Novembro de 1999)


EM QUE SE EXPLICA PORQUE NÃO DEVEMOS PRATICAR DESPORTO REGULAR TODA A VIDA NEM DEIXAR DE COMER À FARTAZANA QUE É PARA NÃO DEIXAR OS MÉDICOS DO CORAÇÃO SEM EMPREGO


Não me surpreendeu a recente notícia sobre a diminuição dos apoios oficiais ao desporto amador na região. Sei como funcionam as cabecinhas dos políticos e o dinheiro não chega para as encomendas. Como se diz, está caro o dinheiro..! O pior é que, nas cabecinhas dos políticos não há qualquer confusão sobre o papel das diferentes áreas do desporto. Não há políticos ingénuos. Há-os bem e mal intencionados mas os ingénuos são atropelados sem piedade logo no início da carreira e não tem outro remédio senão tornarem-se funcionários públicos obscuros ou abrir um negócio de computadores. Os políticos conhecem muito bem a diferença entre desporto/negócio, desporto organizado e desporto/saúde e vida. Sabem exactamente que expectativa de votos se cria à volta de cada um destes tipos de desporto.
O desporto espectáculo, da alta competição, dá muitos votos. É o mundo dos profissionais do desporto, do futebol, do ciclismo, do hóquei em patins, do atletismo, sobretudo estes, em Portugal. É também o mundo dos milhões de portugueses preguiçosos e ignorantes das mais elementares regras de saúde, que se sentam nos recintos desportivos ou em casa, em frente á televisão, a papar bifanas e a arrotar cerveja, enquanto vêem os seus ídolos a evoluir nos relvados, pelados e pisos sintéticos. Se lhes perguntarem, este pessoal diz que gosta de desporto mas estão tremendamente equivocados porque, o que eles querem dizer, é que gostam de ver outras pessoas a praticar desporto, o que é completamente diferente. Este é também e cada vez mais, um mundo de dinheiro e negócios, sujeito a regras empresariais e às leis do mercado, associado muitas vezes a situações duvidosas, a interesses mafiosos e a ligações perigosas entre interesses desportivos, financeiros e políticos. Em termos históricos, é o equivalente dos jogos de circo da Roma antiga, Serve, sobretudo, para entreter a populaça e faze-la abstrair daquilo que realmente importa na vida e que é bem mais difícil de conseguir. Está também intimamente associado ao mundos dos médicos cardiologistas e das urgências dos hospitais devido aos enfartes do miocárdio e tromboses que provoca na categoria dos desportistas sentados. Os políticos adoram associar-se a este tipo de desporto, de diversas maneiras, e para aqui nunca faltam verbas, se bem que seja sempre preciso mais, porque este género de desporto é um sumidouro de dinheiro. Tenho dois paradigmas negativos para sublinhar: um, nacional, é o caso de Carlos Lopes que, sendo uma referência para muitos jovens, mal se retirou, se pôs a engordar que nem um texugo; outro, internacional, é o de Michel Platini, um futebolista de eleição, que marcou a sua época e que me lembro de ter visto há algum tempo, num jogo de convívio, a inquietar-se para aguentar a barriga dentro dos calções, apesar de ser ainda bastante novo.
Outro tipo de desporto é o amador. É levado muito a sério e envolve bastante gente. É o desporto das pequenas e médias colectividades. A grande diferença é que não é pago ou, se é, pauta-se por valores muito baixos (hoje em dia quase não há clubes de futebol, mesmo dos regionais, que não pague qualquer coisinha aos seus atletas…) e as pessoas têm os seus empregos e treinam-se antes ou depois do trabalho. Aqui ainda se vê muito o amor à camisola mas já não tanto como dantes. Ainda não é desporto na sua verdadeira essência mas, como muitas vezes está bem organizado e envolve sobretudo os jovens, pode fazer a diferença entre uma geração saudável e empenhada em qualquer coisa e uma geração de vagabundos sem préstimo para nada e sem referências na vida. Mas, mesmo assim, ainda não é este o desporto mais importante, na minha humilde opinião, porque está quase exclusivamente associado á juventude e às piores formas de espírito competitivo e os praticantes, quando atingem uma certa idade, passam a usar as sapatilhas apenas para combinar com os fatos de treino que vestem ao fim de semana, para ir comprar comida e bebida ao supermercado e passear de automóvel. Este tipo de desporto também dá votos, por isso os políticos lhe dão alguma atenção, mas muito menos do que ao desporto profissional porque envolve verbas pequenas, multiplicadas muitas vezes pelo país fora e não dá tanto nas vistas. Interessa mais aos pequenos políticos, aos presidentes de Juntas de Freguesia e, eventualmente, aos das Câmaras Municipais.
Então, que desporto interessa verdadeiramente ? Afirmo e mantenho que o verdadeiro desporto é aquele que se pratica sempre, pela vida fora, desde criança até ao fim, por gosto, como hábito e atitude, como filosofia de vida, como precaução de saúde, com alegria de viver, sem ambições nem preocupações, porque é bom e porque sim. A modalidade não interessa, pode ser golfe, vela, corrida de manutenção, passeios a pé, futebol, natação, ténis, ginástica, etc. Sobretudo em idades mais avançadas, pode ser complementado ou até substituído, com vantagem, por sexo regular, de qualidade. No entanto, não dá quaisquer votos.
Como povo pouco educado e inculto que somos, ainda nos primórdios do desenvolvimento, ninguém aqui liga nenhuma a este tipo de desporto. Pelo contrário, quando se vê alguém ao fim do dia, a correr pela rua, de calções e sapatilhas, quando já podia estar a regalar-se com o belo bife com batatas fritas e a ver a novela no aparelho da cozinha, a tendência ainda é para dizer ou pensar: “lá vai aquele cromo…”. Tenho esperança que as coisas mudem um dia e as pessoas aprendam a amar e a preservar o seu corpo, visto que nunca se sabe o que nos vai calhar na próxima reencarnação… Mas será que aquele pai que vi há dias fora da Panificação a ensinar o seu filho de 3 ou 4 anos de idade, a atirar o copo de servete para o chão, lhe saberá explicar, algum dia, o valor do desporto descontraído e não competitivo, como fonte de felicidade e saúde ? Tenho as minhas dúvidas. Quantos aos políticos, não há nada a fazer, temos mesmo de conviver com eles. Até à próxima.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

VIDA DEPOIS DA VIDA


VIDA DEPOIS DA VIDA



HELIODORO TARCÍSIO

Os falecimentos de crianças ou jovens na flor da vida são os mais difíceis de aceitar e é comum que abalem fortemente a fé religiosa das pessoas envolvidas, criando amargura e ressentimento pela aparente injustiça do Deus em que crêem. Lembram-nos também, mais do que nunca, a fragilidade da condição humana, a certeza da nossa própria morte e o mistério a ela associado.
A possibilidade de uma vida espiritual e da existência de uma alma, independente do corpo físico, são temas que sempre me apaixonaram e que estão, frequentemente, presentes em muitas das minhas leituras.
Recentemente, li a versão eletrónica do original da conhecida obra de Raymond Moody, Life After Life (Vida Depois da Vida em português). Este autor é um conceituado médico americano com licenciaturas e doutoramentos nas áreas da Filosofia, Psicologia e Medicina (Psiquiatria), nascido em 1944 e que vive atualmente em Las Vegas, EUA.
Moody não tinha qualquer relação específica com a questão da sobrevivência espiritual à morte do corpo físico, nem nenhuma crença nessa área. Contudo, no decurso da sua prática profissional, confrontou-se com testemunhos de muitas pessoas que estiveram em situação de morte clínica, devidamente comprovada e foram ressuscitadas. As histórias dessas pessoas evidenciavam muitos traços comuns. Isso levou Moody a desenvolver um estudo nessa área, a partir dos relatos de 150 pessoas, recolhidos pelo próprio, com um traço comum inquestionável: a preservação da consciência individual após uma situação de morte clínica ou “quase-morte” (near death), termo criado pelo próprio Moody em 1975.
Aparentemente, esta pesquisa goza de credibilidade científica, uma vez que, para além da apresentação dos dados objetivos, coloca várias hipóteses possíveis e equaciona a sua própria refutação.
Uma das mais importantes conclusões de Moody é que, apesar da grande disparidade das pessoas envolvidas (em termos de idade, crença religiosa, educação e nível cultural) e embora cada relato, no seu todo, fosse único, era possível identificar uma quantidade apreciável de traços comuns à maioria. Muito sumariamente, esses traços são os seguintes:
Inefabilidade: dificuldade de descrever por palavras as experiências vividas.
Ouvir: memória de ter ouvido tudo o que foi dito pelos médicos ou outras pessoas presentes no local do evento ou próximo dele, incluindo a constatação médica da morte clínica.
Paz e tranquilidade: sensação de paz infinita e absoluta tranquilidade durante a ocorrência.
Ruídos: aparentemente, é comum ouvirem-se ruídos, sempre na parte inicial da ocorrência, que vão desde zumbidos a coisas mais estridentes e até mesmo música.
Túnel: também no início do processo, é muito comum a sensação de estar a viajar ou a ser “puxado” através de um ambiente estreito e escuro.
Ver o próprio corpo: é muito comum, as pessoas verem o seu próprio corpo físico (numa cama de hospital, por exemplo), ao mesmo tempo que têm a percepção que continuam a ter alguma espécie de corpo, não muito diferente do físico mas constituído por outro tipo de matéria.
Ver outros: é comum surgirem outras pessoas, que parecem ter uma missão de acolhimento e guia, que são, quase sempre, pessoas já falecidas e conhecidas do indivíduo em questão.
Ser de luz: é comum aparecer uma figura que quase toda a gente designa por algo como “ser de luz”, que comunica (telepaticamente, sem verbalização) com a pessoa e que transmite, invariavelmente, uma sensação de amor e aceitação incondicional.
Revisão da vida: o “ser de luz”, quando aparece, procede sempre a uma revisão de toda a vida da pessoa, que é feita numa escala de tempo inimaginável para os humanos e que é muito completa e realista, não comportando, todavia, qualquer censura ou punição, apenas avaliação e aprendizagem.
Limite ou fronteira: parece haver um limite ou fronteira, percepcionado de diferentes maneiras mas que significa um ponto de não retorno, depois de transposto.
Resistência ao regresso: depois de uns primeiros instantes de incredulidade e desespero perante a morte, o traço comum é, invariavelmente, a sensação de felicidade e de não querer voltar à vida física.
Relatar a experiência: não parece ser fácil encontrar pessoas disponíveis para relatar as suas experiências de quase-morte; enquanto elas próprias as sentem como algo muito real e verdadeiro, rapidamente percebem que o mundo à sua volta, não tem a menor disponibilidade e boa-vontade para ouvir e muito menos acreditar nos seus relatos.
Efeitos na vida: muitas das pessoas entrevistadas dizem que a sua vida mudou muito, para melhor, depois do incidente, que passaram a ser muito mais calmas, mais filosóficas e que a sua visão da vida se aprofundou e alargou; evidentemente, deixaram de recear a morte, pois passaram a acreditar numa vida para além dela.
Corroboração: curiosamente, muitas destas histórias puderam ser corroboradas, pelas pessoas presentes no momento das ocorrências, nomeadamente em relação ao que a pessoa, em situação de morte clínica, diz ter visto e ouvido.
Evidentemente, Raymond Moody é agora um crente na vida depois da morte, assim como na reencarnação e desempenha um papel importante na divulgação destas ideias, ao mesmo tempo que ajuda muitas pessoas.
A minha própria intenção, ao escrever este artigo, é apenas chamar a atenção para estas temáticas, ajudar as pessoas a refletir sobre temas filosóficos e lançar uma semente de esperança. Eventualmente, ajudar alguém na sua dor pessoal. Eu próprio, nunca “morri” até agora e nunca vi fantasmas. A minha aproximação a estes temas é tanto intuitiva quanto racional e a minha perspetiva é imensamente razoável. Ou há algo depois da morte ou não há nada. Se há, ufa, que alívio. Se não há, também cessará toda a dor. Porém, acredito que haja.
Devemos olhar com respeito para esta obra e estes testemunhos. Afinal, trata-se de pessoas comuns, Josés e Fátimas, que estiveram às portas da morte e regressaram. Ouçamos o que têm para nos contar, com o espírito aberto.
O famoso médium brasileiro, Chico Xavier, conta-nos que, numa situação de intenso medo de morrer (a bordo de um avião sob turbulência severa), o seu guia espiritual, Emmanuel, lhe apareceu e lhe disse que morresse com educação, se tivesse de morrer naquele dia. Tal como Chico Xavier, também penso que deve ser difícil morrer com educação. Com certeza que morremos agoniados, doloridos, urinados, vomitados e completamente acagaçados.. Mas já acredito ser possível morrer com conhecimento. POPEYE9700@YAHOO.COM